Houve o galego Manuel Ferrol, de 1956, e Martin Parr (The Last Resort), entre outras coisas variadas. Não simpatizei com a Rineke Dikstra, que se voltaria a encontrar muitas vezes (em disputa com Augusto Alves da Silva, em Londres), com os pegadores de touros, os soldados isrealitas (Madrid), etc - ficou-me sempre atravessado o facto de não lhe ter sequer referido o nome na colectiva das "Paisagens Marítimas"...
EXPRESSO Cartaz de 13-05-95, pág. 16
ENCONTROS DA IMAGEM, Braga
"Águas paradas"
Reedita-se em Braga o ritual dos "encontros de fotografia". A Europa e o mar é o tema
Cumpre-se o calendário anual das celebrações da fotografia, mas a fórmula «encontros» vive hoje acantonada na estratégia da sua própria sobrevivência. Para encobrir a incapacidade de se renovar, como sucedeu antes aos «Salões», insiste-se na regra da quantidade das exposições e dos nomes apresentados, apesar de contraditória com a crónica falta de meios, e adopta-se a receita ou o alibi da sujeição a um tema genérico, procurando talvez no reforço aparente dos conteúdos um acréscimo de eficácia social para as imagens. A «divulgação» desligada da implantação de centros de actividade permanente, a «animação» sem iniciativas de produção e de colecção, de investigação e de formação, parece consumir-se dentro dos limites das boas vontades e da repetição ritual. Já não são esses lugares de peregrinação que marcam o ritmo da fotografia.
E, no entanto, vai havendo imagens para ver, mesmo que as descobertas escasseiam. Em Braga, na 9ª edição dos Encontros, o tema é «A Europa e o Mar»: há praias e portos, ondas e barcos, banhistas, emigrantes e pescadores, em versões históricas e contemporâneas.
Ao propor-se uma temática que as fotografias ilustram, podia supor-se que o programa se prolongaria no crescimento das «legendas», cruzando o inventário das visibilidades com a exploração analítica dos tópicos sugeridos como «conteúdo», dando aos inquéritos uma dimensão mais ampla: a Europa e o mar é a reconversão das antigas zonas portuárias, a nova partilha das áreas de pesca, o petróleo, a degradação ou o reordenamento do litoral. Esse outro encontro entre as imagens e as palavras não se faz, e os prefácios incluidos no catálogo geral são textos de circunstância. As exposições importadas chegam desacompanhadas dos livros respectivos e os representantes dos encontros ou museus estrangeiros não vêm comunicar as suas experiências.
Jacques-Henri Lartigue regressa, no ano seguinte ao seu centenário e ao acaso das reedições de um espólio inesgotável: agora mostram-se os lazeres aquáticos («Rivages», margens), na sucessão feliz de uma vida de ociosidade permanentemente olhada ao espelho da fotografia. Mas a estandardização das provas actuais não estimula mais do que uma resposta desatenta.
No Museu dos Biscainhos, entretanto, as praias levianas do filho de banqueiro contrapõe-se às imagens dramáticas dos cais da Galiza, na partida de emigrantes para as Américas, numa reportagem inovadora de Manuel Ferrol («Emigracion») que data de 1956 e já se mostrara em Coimbra vinda do Centro de Vigo. Noutra exposição, «The Last Resort», Martin Parr denuncia em 1984 a decadência da praia de New Brighton, a estância de luxo de Liverpool no início do século, e também a da classe operária britânica nos tempos de Tatcher. O olhar é implacável, tal como a luz do sol intensificada por reflectores e flash, e vale a pena aprofundar, sob a aparência de uma fórmula fácil, a malha de informações e sentidos destas imagens deliberadamente incómodas; em 1991, Braga já apresentara «The Cost of Leving», um episódio posterior do mesmo inquérito.
Da cor aos cinzentos gráficos, outras imagens de decadência: o francês Eric Bourdet fotografa nos estaleiros ou canais abandonados as formas e sentimentos da morte, trabalhando sobre a textura dos materiais, o tempo e os sais de prata depositados, como fazem Paul den Hollander, Fastenaekens e outros. A pesquisa formal prosseguirá em muitas outras imagens da colectiva «Paisagens marítimas», com a imobilização da superfície luminosa das águas, como padrões estruturados, magma ondulante ou torvelinhos caóticos, nas fotografias de Detlef Orlopp, Gérard Scache, Juan Rodriguez, Patrick Le Bescont, ou com as visões evanescentes dos horizontes, entre areais e céus, de Alain Buttard e Marina Ballo Charmet. A fotografia olha-se assim a si própria.
Ou, noutras exposições, ela atribui-se as razões do documentário. Yves Leresche e Serge Michel («L'Europe des mers») percorrem 70 000 km de margens fluviais e marítimas, da Turquia à Rússia, com escala portuguesa, mais atentos à gente que trabalha do que às paisagens balneares. A viagem é sentimental, feita de encontros calorosos, de retratos atentos às histórias dos lugares. Outras viagem, em projectos próximos, passam das margens para o mar e os fotógrafos retratam os actuais navegadores: Paolo Verzone & Alessandro Albert descem às cavernas de um cargueiro de longo curso e Monzino, outro italiano, acompanha a gesta do peixe até ao mercado, com uma agilidade assinalável na sequenciação das imagens. Entre os quatro portugueses que integram outra colectiva, Margarida Dias também embarca para acompanhar a noite dos pescadores: a luz desenha os gestos da faina e os corpos dos peixes entre os negros profundos.
Os outros três cumprem o tema aquático («Mar lusitano»), sem se adivinhar que a encomenda coincida com interesses próprios: Adriano Miranda ilustra essa indecisão fotografando sem objectiva, Álvaro Rosendo inscreve como vagos lugares da memória uma indiferenciação dos elementos e Óscar Almeida faz nas margens do Porto um reconhecimento correcto e sem surpresas. A representação não deslustra no panorama geral, de que também faz parte, numa das colectivas, Luisa Ferreira com os seus polaroids desenhados.
Da Bélgica, da Galeria Contretype, veio um outro grupo de autores que mostrará o trânsito da fotografia a outras experiências expositivas, trocando-se a imagem do mar pela invisibilidade do «sentimento do mar» (J.-F. Godfroid), confundindo o assunto com o suporte dos objectos (idem), da mancha ténue no papel sensibilizado ao negrume quase total.
Se tal passar por ser o futuro da fotografia, regresse-se ao seu passado recuperado nos arquivos. «Memórias do tempo» é o título óbvio de um pequeno sumário de investigações possíveis, que vai do Museu Vicentes, do Funchal, ao Museu da Póvoa do Varzim, passando pelo Arquivo Ferreira da Cunha, de «A Capital», e que servirá apenas para alertar que há documentos à espera de serem conservados, classificados e usados (mas algumas já se queimam com a luz excessiva). Assinale-se também a comparência do Arquivo Nacional de Fotografia, que reimprimiu Emílio Biel, Domingos Alvão, João Martins e João Camacho Pereira em belas provas tonalizadas e sujeitou imagens dos Estaleiros de Vila do Conde (Alvão) a experiências de leitura, por ampliação e refotografia de pormenores. Aí organizam-se espólios de milhões de negativos, ainda com excessiva discrição, mas falta dinamizar, em direcções menos documentalistas, uma outra política de colecções públicas.