Foram finalmente designados os representantes oficiais na Bienal de Veneza de 2009 ( a biennale d'arte di venezia, Venice Biennale) : dois artistas (uma dupla de artistas) dos "anos 2000"
A DGA e o MC lá encontraram uma solução, expedita/expeditiva, mais económica que as anteriores (dois artistas* pelo preço de um: cá está, afinal, o fazer mais com menos, que eu muito tinha apreciado no início). Depois de terem cedido a alguns pequenos círculos de interesses ou só de má língua do exíguo artworld nacional, que tudo fizeram para afastar uma artista com talento, energia própria e projecção externa (Joana Vasconcelos), assim se arranjou à última hora uma solução que o mesmo artworld caseiro verá certamente com melhores olhos**. Tratou-se de jogar para dentro do meio das artes, o que é pequena política mas mantém as aparências e satisfaz clientelas. (Julguei que a política podia ser outra, mas enganei-me outra vez.) E quem mais teria as malas prontas e aceitaria ir com este inexistente prazo?
João Maria Gusmão e Pedro Paiva, "Pedra inviolável", filme de 16mm, sem som; 1'28'' - ver www.galeriagracabrandao.com
Tratou-se de baixar (ainda mais) a parada, descendo do nível dos "consagrados" (entre aspas) ou dos meios da carreira (é difícil falar em maturidade, quanto a vários casos anteriores - e mesmo "carreira" é ambíguo) para o das promoções, ou primeiras projecções: os inícios de uma possível carreira. São sinais políticos muito problemáticos, que asseguram a continuidade do pior do sistema burocrático instalado (centralizado e autoritário), quando a actual crise já está a mostrar a respectiva desagregação. Porque pela fragilidade sucessiva das escolhas e das representações oficiais se tem chegado à cada vez maior inconsistência de critérios e valores, logo à perda de referências para o público alargado (aquele que não é tido nem se considera como parte do artworld, público amador e interessado que ainda frequenta algumas galerias e o que já não), e em especial à sempre crescente ausência de legitimidade-credibilidade das estruturas e agentes de mediação (como tudo se equivale sem hierarquias de valores, e sem debate público***, só quem está no inner circle é que se apercebe da lógica do sistema). (Tal como a Educação, a área da Cultura - e a da arte, sem aceitar que a cultura seja a degenerescência kitsch e mercantil da Arte, via Adorno - precisa de mediadores credíveis, sujeitos a mecanismos de avaliação reconhecíveis - mas não os tem, nem quer ter, e essa será uma das razões da sua menoridade, como se vê no actual e anterior quadro governamental.)
O sistema impõe a rotação rápida das promoções de jovens, a exigência do êxito imediato das primeiras obras e a sua rápida circulação internacional - e decreta a exclusão quando essas condições não se satisfazem. É a política barata das promoções de jovens artistas (muito pouco selectiva e com nomes sempre descartáveis), continuada pelas colecções de empresa (o BES, por exemplo, ou a CGD/Culturgest, as fundações Ellipse, Ilídio Pinho, PLMJ, etc) e, até agora, pelo coleccionismo especulativo na rectaguarda e em cumplicidade com o museu - com os mesmos comissários, tantas vezes. É a ausência de sedimentação das obras e das carreiras, porque não é no curto prazo - raramente o foi - que elas se constroem, consolidam e comprovam. Por isso se combate o conceito moderno de museu, trocado pelo museu-laboratório (ou só entreposto para servir privados mais ou menos elípticos...)
Em grande parte, esse baixar a parada e a guarda quanto ao nível de reconhecimento dos artistas escolhidos também corresponde a um entendimento provinciano da lógica de desvalorização das bienais históricas (Kassel, Veneza, até ao desastre de São Paulo) e à sua multiplicação exponencial em novas áreas geográficas ou regionais: instrumentos do marketing cultural público local e sucedâneos das novas feiras dirigidas ao mercado institucional dos museus e coleccionadores oficiosos. Copiamos a espuma da mundanidade cultural, e só os maus exemplos. (Mas claro que nem tudo é corrupto e idiota no meio académico-institucional, e pouca coisa tem qualidade fora do sistema... Há imensa arte, melhor ou pior, óptima ou nula, é sempre arte - mas muito pouca se eleva do seu contexto imediato.)
É, por outro lado, um sinal de apoio já fora de prazo (a crise económica implicaria viragens políticas) à permanência de um universo artístico ficcionado sobre a construção de uma linha divisória entre os artistas que trabalham para o mercado (o mercado livre) e os outros, os da arte oficial (os bolseiros, "residentes" e "mestrandos" ou "doutorandos", professores, funcionários, herdeiros, etc, os artistas assistidos e burocratas em geral) que se encostam à circulação institucional, e dela dependem. Poderia ter-se chegado, por essa via, depois da "autonomia modernista", à reconstrução do sistema mecenático da encomenda oficial (o Estado central/local e os seus círculos próximos de privilegiados ocupando o lugar antigo da Igreja, das Cortes, etc), mas atingiu-se só a sua aparência, porque a função social a cumprir passa agora pela ausência de sentido****. E, aliás, a crise já faz fraquejar os frágeis pilares deste renovado sistema académico de uma arte oficial que se sustentaria na ideia de que a "anti-arte"***** já venceu.
Muitos dos artistas que têm sido levados a Veneza são muito pouco interessantes, alguns muito desinteressantes******. O assunto tem muito pouca importância (la vrai vie est ailleurs). É só um sintoma do estado da política.
* João Maria Gusmão e Pedro Paiva, com comissariado de Natxo Checa, o animador da ZDB. Fiquei com a impressão que as exposições mais recentes, na Cordoaria e na Gal. Graça Brandão, davam sinais de cansaço, face à curiosidade de algumas obras anteriores (desde a ZDB em 2001, as Tercenas em 2002...) e face às exigências de multiplicação de algumas pequenas ideias graciosas e/ou inteligentes, para acorrerem a tanta representação externa*******. Aquilo parecia estar a tornar-se numa chatice e numa rotina depois de ter tido por vezes algum humor e algum sentido de experimentação com luzes e objectos. As promoções muito rápidas são em geral destrutivas, mas o sistema estava a tentar cada vez mais alimentar-se desse usar e deitar fora (artistas e obras), sobre a diluição da ideia de valor. Pelos vistos, o sistema financeiro também - ou o sistema é o mesmo?
** Já enviei os parabéns ao Zé Mário, sinceros.
*** Veja-se a falta quase total de comentários nos artigos de temas culturais nos sites abertos - por exemplo no Ípsilon. Entre o aplauso universal e a distância céptica, impera o silêncio. O medo de dizer asneira (ao contrário do que se passa quanto à opinião política). O consumo acéfalo.
**** As obras - objectos apenas com função estética ou com intenção a-estética (Duchamp, Robert Morris, etc) - são apenas peças de exposição, eventualmente peças de colecção, mas o coleccionismo é de novo tipo: o museu não tem colecção permanente, a colecção destina-se ao armazém ou à revenda especulativa.
***** O termo não é (só) depreciativo - veja-se o registo da sua consagração como critério genealógico da arte oficial, por exemplo, em "The Triumph of Anti-Art - Conceptual and performance art in the formation of Post-modernism", Thomas McEvilley, 2005.
****** Este ano é, mais uma vez, uma escolha sem risco ou rasgo - uma escolha burocrática. Mais uma ilustração do estilo contemporâneo, sem surpresa ou escândalo. Surpresas, já agora, seriam um Nuno Viegas, um Gonçalo Pena, um Gabriel Abrantes - chocando a pintura viva e saudável, maximalista (dos dois primeiros, pelo menos), com os muitos exercícios picturais fúnebres ou exangues que pelos museus circulam (a gestão do fim da pintura, sempre). Ou uma Sara Maia, que também é muito apreciada pelo nosso ministro. Qualquer coisa fresca e que chocasse, e que ainda não tivesse feito o pequeno circuito das internacionalizações sem consequências, de ida e volta, o qual, segundo julgo, já cumpriram Gusmão & Paiva. Dizem-me que só lhes falta a Documenta - e isso que importa...? (felicidades é o que lhes desejo, com a máxima sinceridade)
******* Exposições Individuais em 2008:
.“Meteorítica", Galeria Graça Brandao, Lisboa
."Meteorítica", Galeria Fortes Vilaça, Sao Paulo, Brasil
."Horizonte de Acontecimientos", Matadero Madrid, Madrid, Espanha
."Articulações", Minas de Salgema, Loulé, Portugal
."Abissologia", Cordoaria Nacional (Zdb), Lisboa
."Passengers: 1.7", CCA Wattis Institute for Contemporary Arts, San Francisco, USA
."Hydraulics of Solids", Adam Art Gallery Victoria University of Wellington, Wellington, New Zealand.
Parecem contas mal feitas, viagens, dormidas, alimentação não me parece que seja só para um artista mas sim dois, as contas que o Alexandre apresenta deve ser a comparar o mercado das galerias, 50 por cento para o galerista 50 por cento para os artistas, neste caso 25 por cento para cada um. Se nos textos anteriores por vezes refere-se à falta de rigor das informações, parce-me que também o deveria ter com os seus próprios textos.
obrigada
Luisa
Posted by: luisa | 04/13/2009 at 01:26
Não percebo o que diz, mas não importa, agradeço sempre, e mais ainda quando se expressa desacordo. (Já agora, esta é outra Luisa - há muitas.)
Posted by: ap | 04/13/2009 at 02:49