Parece que correu bem o lançamento do livro COM AS MÃOS, do Luís Abélard, na livraria Babel São Sebastião em Lisboa, quase em simultâneo com o que teve lugar em Maputo, na Associação Moçambicana de Fotografia, de que ele foi por breve tempo presidente, a partir de 2007, com o apoio indispensável dos fundadores Ricardo Rangel e Funcho. Kok Nam, aliás, também compareceu agora, em Lisboa. O espaço não chegou.
Essa simultaneidade separada pelos fusos horários pode significar que uma dinâmica de parcerias e trocas é agora possível, se esta não foi uma circunstância única movida pelos amigos do L.A.. No início da sessão, Dalila Rodrigues, responsável editorial (Athena/Babel) anunciou a publicação próxima de um livro da professora Alda Costa que tem origem na sua tese de doutoramento, defendida em Lisboa em 2005, então com o título ARTE E MUSEUS EM MOÇAMBIQUE - Entre a construção da nação e o mundo sem fronteiras (c. 1932-2004). É uma obra pioneira ou fundadora, indispensável, também para a história da arte em Portugal - ou portuguesa -, já que pelo menos até à independência há muitos nomes e obras comuns. E, por acaso, eu tinha vindo da colaboração numa longa jornada fotográfica dedicada às colecções africanas do arquitecto Pancho Guedes, que se irão ver numa exposição a apresentar pela CML, na sequência das três colecções que se mostraram no Terreiro do Paço mas com uma diferente ambição, já que, para além de outras razões substanciais, ela se prolonga pela atenção à arte popular e às chamadas artes plásticas contemporâneas, com especial incidência temporal nas décadas de 50/70. O projecto foi também, embora vagamente, referido nas apresentações.
Com a intervenção de José Luís Cabaço, amigo do Luís Abélard, e antigo ministro da Informação quando arrancou a Associação Moçambicana de Fotografia em 1981/83, com origem num 1º Salão de Arte Fotográfica que se prolongou já em 1984 na edição do álbum "Moçambique A Terra e os Homens", graças à cooperação italiana. Um dos autores dos textos do livro, tal como Luís Carlos Patraquim, também presente. E com fala do embaixador de Moçambique a patrocinar o acto e a associá-lo aos 35 anos da independência (mas são os 50 anos que grande parte da África comemora agora...).
A circulação deste livro dedicado a 24 artistas moçambicanos nos dois países, e nos dois mercados, com o apoio do Banco de Moçambique, poderia pôr fim a uma situação de divórcio ou incomunicabilidade absurda que se pode ilustrar com o total alheamento em que decorreu a publicação já em 2004 de um grande livro de Ricardo Rangel, que comprei em Maputo em 2007 quando já era dado como esgotado - tinha sido impresso em Santo Tirso pela Norprint, com a vinda de Rangel para acompanhar a publicação, mas os mil exemplares da edição Marimbique patrocinada pela Cooperação Suíça não tiveram qualquer distribuição em Portugal. "Pão Nosso de Cada Noite" recolhia as fotografias em parte ainda inéditas das noites da Rua Araújo que foram um passado comum a várias gerações de cá e de lá, para muitos involuntário. Outro exemplo, muito recente: quem deu conta da passagem por Lisboa e da notável conferência pública do sociólogo moçambicano Elísio Macamo, professor em Bayreuth e agora em Basel, que aliás desconhecia. Onde se compram os seus livros (e há alguns por traduzir...)?
Depois de referir, não por acaso, as cooperações italiana e suíça, é mais oportuno ainda referir que a portuguesa, oficial ou não - para lá do investimento básico na língua - tem sido uma história de promessas por cumprir e de iniciativas abandonadas. Vale sempre a pena lembrar a exposição "Réplica e Rebeldia", comissariada por António Pinto Ribeiro, Gemuce e outros, produzida pelo Instituto Camões e abandonada em Lisboa, em 2007, depois da circulação afro-brasileira e de ter sido sempre prometida a itinerância europeia internacional. Ou a colecção e a linha de exposições iniciada pela Culturgest e a CGD, interrompida por um qualquer responsável de passagem, como se não se tratasse de uma orientação estratégica do maior banco nacional. Ou o projecto ArtÁfrica espartilhado como uma (mera) base de dados, modesta embora útil iniciativa da Gulbenkian em 2001 e depois transferida para um Centro de Estudos Comparatistas, como se os "dados", as obras, não estivessem disponíveis para outras dinâmicas de intermediação. Das várias promessas falhadas ou interrompidas à grandiloquência de um projecto como o Africa.Cont (2008...) a lógica é a mesma: interromper o que se começou, não fazer o que está pronto para ser feito, trocar realidades por miragens.