À palavra Museu, com a maiúscula institucional, associa-se a ideia de permanência, ou continuidade e mesmo imobilismo. A realidade é outra. A narrativa histórica que o Museu supostamente fixa é instável, e o passado que se julgaria solidificado por um acto fundador, ou sedimentado pela acumulação de tempos e de saberes, vai-se metamorfoseando em sucessivas versões, que podem não ser apenas diferentes entre si, e serão até opostas ou contraditórias. De facto, o Museu - em especial se se diz de arte moderna ou contemporânea, e a distinção é opaca - tende a apresentar uma versão presente do passado, e por isso essas versões (que são construções ou visões) mudam com facilidade.
O Museu do Chiado, que começou por chamar-se, há um século, Museu Nacional de Arte Contemporânea, porque se queria o lugar da consagração de um grupo (ou Escola) de artistas vivos então dominantes, na sociedade e na academia, é um exemplo particularmente instável dessa disponibilidade para a mudança que se oculta na aparente imobilidade associada à ideia de Museu. Certamente, mas por uma outra ordem de razões, é também um sintomático exemplo de como muitas instituições do Estado podem subsistir em estado de constante vulnerabilidade (institucional), em vez de ganharem a condição de permanência que pareceria uma intrínseca característica da sua função.
A celebração do centenário do Museu do Chiado, que se associou às comemorações dos 100 anos da República, por esta o ter legalmente fundado através da divisão do anterior Museu Nacional de Belas-Artes em duas entidades distintas, consagradas à Arte Antiga e à Arte Contemporânea, poderia ter favorecido o aprofundamento, e a resolução, dos equívocos que há muito associam a data de 1910 e a irrupção do que se considera o primeiro modernismo em Portugal, que também se entende como verdadeiro início do séc. XX artístico. É que aquilo cujo início se marca em 1910 (ou 1911, com a Exposição Livre e os Humoristas), como sucede na exposição recém-inaugurada no Museu do Chiado e no vol. II do catálogo da respectiva colecção, não tem nada a ver com a iniciativa da República nem com a criação do Museu.
O título da exposição "Arte Portuguesa do Século XX (1910-1960). Modernidade e vanguarda" torna bem evidente que quando se arrasta o início do século para a sua segunda década está-se a pretender identificar modernismo e vanguarda, o que constitui uma singularidade portuguesa certamente justificada por circunstancialismos da oposição político-cultural ao regime salazarista - e também por idiossincráticas razões que assistem ao historiador de arte que criou e depois assegurou a continuidade de uma tal concepção. A República e os republicanos defendiam um gosto estético tido por conservador, mas a ideias de ruptura e de vanguarda chegadas de fora do país manifestam-se a partir de 1910, mesmo que o seu vanguardismo seja politicamente reaccionário. Com alguma manipulação dos factos, faz-se a apropriação da "revolução republicana" enquanto limiar cronológico (mas ignoram-se os artistas e críticos republicanos) e associa-se depois ao modernismo estético uma condição "progressista" que ele aqui não podia ter. Com esta troca ganha-se uma história ficcional oposicionista que se contrapõe ao autoritarismo retrógrado do Estado Novo, e em geral alimenta-se uma interpretação do país que conjuga a fatalidade do atraso à miragem de uma vanguarda definitivamente salvadora. Que outro modernismo (o dos anos 30) tenha tido por sustentáculo António Ferro e a sua parte de Estado Novo (contra outras partes do Regime), é apenas uma dificuldade suplementar para um voluntarismo táctico que se adapta sempre a novas circunstâncias.
1º catálogo [VER COMENTÁRIO: não é o 1º...] do Museu Nacional de Arte Contemporânea, apresentação de Dulce Malta com data de 1965, ao tempo da direcção de Eduardo Malta. Terá sido retirado de circulação pelo Ministério da Educação do tempo, devido ao carácter racista e em especial ante-semita.
Em resumo, o actual Museu do Chiado celebra-se a si mesmo por ocasião do centenário da República, mas o que mostra agora no seu programa, "balizado, no seu início, pelas primeiras afirmações modernistas da revolução republicana" (sic - é a 3ª linha da introdução do catálogo), omite por inteiro o que eram a arte e os artistas para os quais a República criou o então Museu Nacional de Arte Contemporânea. A exposição e o catálogo anteriores dedicaram-se ao século XIX entendido como um tempo que vai de 1850, com os inícios da colecção, a 1910, considerando a primeira década do novo século como de sobrevivências e continuidades, apesar de no final se anotar a novidade dos simbolismos, uma notícia Pré-rafaelita, a modernização de Sousa Lopes e uma raríssima pintura Arte Nova (mas isso é o séc. XX!). Seria preferível, aliás, começar a falar de modernos (e modernizadores, e modernistas) muito mais cedo, no início dos anos 1880, tomando por certo o nome dos Salões de Arte Moderna do Grupo do Leão, que se substituem com êxito aos Salões da Sociedade Promotora de Belas-Artes. Conviria fazer uma leitura mais fina da longa persistência do naturalismo nacional e da amálgama de coisas que com o seu nome se recobre. Mas a regra de obediência escolar é ainda a ideia fatal de um "desacerto cronológico com a história da pintura ocidental, no seu real ponto de definição parisiense", como se lê na pág. 24, do vol. II da história oitocentista de J.A.França (3ª ed.). A tal "definição parisiense" é a perversa chave que nos interdita uma abordagem comparativa com outras histórias nacionais, que vão do modernismo espanhol (1880-1918...) à arte russa moderna, etc, e que nos condena quer à tese do atraso quer à cegueira.
A "Arte Portuguesa do Século XX" começa em 1901 e inclui nas suas primeiras décadas as obras dos artistas então em actividade (actividade meritória, entenda-se), mesmo se o momento da sua primeira afirmação ocorreu no séc. XIX. É fácil de entender como seria absurdo excluir de uma mostra da arte do séc. XXI todos os artistas actuais que surgiram, por exemplo, nas décadas de 70 e 80 do século passado. Por acréscimo de razão, a reconsideração histórica (e comemorativa) do Museu de Arte Contemporânea criado em 1910 não poderia omitir as obras contemporâneas dos artistas então activos, como Columbano, Malhoa, Sousa Pinto e António Carneiro, Aurélia de Sousa, etc, e muitos outros de afirmação posterior que são pintores da modernidade mas não vanguardistas, nem tinham que ser. Seria preciso confrontá-los com os seus sucessores coevos e sujeitar estes a uma avaliação de qualidades que em muitíssimos casos não lhes seria nada favorável. Mas não será por isso que aqueles se escondem, a coberto do desacreditado argumento vanguardista do progresso?
Catálogo do Museu do Chiado (vol. II), 2011. Com introdução de Pedro Lapa
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