FIGURA.FICÇÃO
Catálogo da retrospectiva de René Bertholo no Museu de Serralves
7 de Abril - 28 de Maio de 2000
(Inclui textos de John Ashbery, André Balthazar, João Fernandes, Sebastião Fonseca, José-Augusto França, Jean-Jacques Lavêque e Alexandre Pomar. As entrevistas foram conduzidas por Xavier Douroux & Frank Gautherot, Pierre Restany e Jean-Luc Verley.)
1. René Bertholo é um actores, é mesmo um dos protagonistas, que
intervêm na conjuntura em que, no início dos anos 60, em Paris, tal
como em outras capitais, se procede ao ensaio das condições de
possibilidade de uma figuração entendida como nova, isto é, defendida
como de ruptura ou de vanguarda face ao predomínio das expressões
abstraccionistas.
Esse é um ciclo complexo em que às manifestações de um corte geracional
e cultural se associavam linhas mais ou menos subterrâneas de
continuidade com precedentes práticas realistas e, especialmente, com
orientações críticas dos valores instituídos que se interessaram por
várias formas de figuração primitivista (infantil, popular, grafitista,
etc), desde Dubuffet e Chaissac até às manifestações do grupo Cobra, de
Appel, Jorn, Constant e outros, sobre heranças do surrealismo
revolucionário belga e com sequência imaginista e situacionista. Aos
«novos realismos» que se aproximavam da interpretação de uma nova
«natureza industrial, mecânica, publicitária» (1) por via da
apropriação directa dos seus produtos e detritos (assemblage,
acumulação), somam-se então as práticas picturais que buscam a sua
renovação no reportório das imagens populares da cultura urbana, sob as
designações Pop e neofiguração, a qual, em versão mais parisiense, se
nomeava figuração narrativa e, a seguir, figuração crítica. A
respectiva consagração enquanto atitude vanguardista seria tão rápida
como efémera, logo desvalorizada como prática regressiva (2) e
substituída pela aceleração da lógica das rupturas, ao ritmo de uma
crescente dissociação dos circuitos de legitimação, a que o seu próprio
êxito público dera lugar. Diferentes atitudes radicais, que recuperavam
o vector da autonomia formalista ou escolhiam o primado da atitude,
poriam então em causa, outra vez, a continuidade da pintura como medium
ainda potencialmente inovador e relegavam para a área do «mainstream»,
ou para a travessia do deserto, quase todos os artistas que estiveram
associados àquele processo.
A década é tumultuosa. Nela se encerra a guerra da Argélia e abre a do Vietname (e também as guerras portuguesas), transportadas para o interior das metrópoles, num processo em que os sucessos económicos do pós-guerra são confrontados com a estagnação das expectativas políticas geradas pela vitória aliada, identificando-se a contestação ideológica com a miragem da emergência de alternativas nas periferias pré-capitalistas. (A conjuntura política, que aqui se terá de supor conhecida, voltará a ser referida a propósito da obra de R.B., na medida em que ele próprio se vai confrontar claramente com as marcas mais efémeras daquela.) É também uma década que assiste à substituição das consagrações parisienses pelo dinamismo de um novo centro, Nova Iorque, e também à afirmação de outras capitais, aonde chegam mais cedo os ecos norte-americanos ou que têm mais experimentada a sua condição periférica. A França nunca mais saberia, até hoje, defender os seus artistas e os estrangeiros que acolhia, tornando-se doentiamente dependente dos gestos de reconhecimento vindos do exterior.
Sendo um dos protagonistas de uma dinâmica colectiva de renovação, e é raríssimo que na arte portuguesa se verifique, em vez da dependência ou da sintonia, essa participação plena no centro da acção internacional, René Bertholo é – em grande medida por isso mesmo (o confronto surdo entre estrangeirados e «resistentes» que no interior se acomodaram continua a atravessar o panorama nacional) – o último dos artistas portugueses afirmados nos anos 60 a ser objecto de um olhar retrospectivo. Valerá a pena enfrentar o atraso da revisão da sua obra, que muitas vezes foi sendo apontada como indispensável, mas que tem ainda em Serralves uma abordagem só antológica.