FOTOGRAFIAS DA SEC
Casa de Serralves
(11-03-95)
Sob o título «A Ordem do Ver e do Dizer», a Fundação de Serralves apresenta uma selecção de obras da Colecção Nacional de Fotografia, reunida em 1989 e 1990 por Jorge Calado, a convite da secretária de Estado Teresa Gouveia, e apresentada na antiga galeria da SEC no início de 1991 (e também em Lagos, em 1993, parcialmente).
Segundo o propósito inicial, as aquisições deveriam ter prosseguido sob a responsabilidade de novos comissários, uma vez que o acervo reunido é apenas o início de uma colecção; no entanto, sob a gestão de Pedro Santana Lopes nem as compras tiveram sequência em anos seguintes nem as obras existentes mereceram quaisquer cuidados de conservação e segurança, do que resultaria o roubo de mais de uma dúzia de provas originais.
Em 1994, depois de promessas feitas a diversas entidades, a Colecção foi confiada em depósito à Fundação de Serralves, embora nada se encontre assegurado quanto ao reinício das aquisições. A presente exp. é comissariada por Teresa Siza, que «optou por uma triagem clássica, isolando três perspectivas de leitura», em secções intituladas «o referente da realidade», «as estratégias da técnica» e «o olhar perturbador e perturbado». A arquitectura interior da exp. é de Álvaro Siza e Eduardo Souto Moura, que desenharam suportes expositivos e candeeiros originais.
(22-04-95)
A colecção de fotografias da SEC, reunida em 1989-90 por Jorge Calado, saiu da clandestinidade com esta exp. comissariada por Tereza Siza, mas as condições adversas que ela conheceu desde a sua primeira apresentação pública (que chegaram até ao roubo de mais de uma dezena de peças) não foram ainda totalmente vencidas: em primeiro lugar, este não devia ser um acervo congelado, mas o núcleo fundador de uma colecção em crescimento, sujeita à diversidade dos critérios dos seus sucessivos comissários e aberta a novas direcções e aprofundamentos. Para a SEC, depositar a colecção em Serralves parece, no entanto, ter correspondido a um mero gesto de desresponsabilização, desligado de qualquer estratégia de apoio à fotografia — ou terá sido só uma compensação por ter contrariado a continuidade do Fotoporto?
Por outro lado, são também adversas as condições físicas criadas para a exp. por Siza Vieira e Eduardo Souto Moura: a utilização de mesas pode justificar-se como processo de destacar algumas fotos particulares no âmbito de uma exp. mais vasta (por exemplo, provas «vintage» numa mostra de reimpressões recentes), mas é inadequada como fórmula geral — a exp. parietal não é uma rotina, corresponde, na pintura e na fotografia que com ela concorre como objecto de exposição, a uma situação perceptiva mais favorável, em homologia com a janela. A originalidade portuense, que é apenas subordinação à lógica de um «design» autonomizado das funções que deve servir, tem por efeito sujeitar as fotografias a uma direcção constante do olhar, de cima para baixo, que impede o relacionamento adequado com os originais (a referência ao livro e ao manuseamento das provas fotográficas não colhe, porque elas estão aqui inacessíveis à mão e ao seu movimento livre), banalizando-os como documentos, perturbando o entendimento das distâncias e das direcções do ponto de vista do fotógrafo. Mais grave ainda é o plástico ou acrílico anti-reflexo que as cobre, uniformizando as suas superfícies, texturas, brilhos, etc — o que é ainda mais notório quando se dedicou uma secção da mostra à diversidade dos processos fotográficos.
Recorde-se, a propósito, que uma outra importante exp. recente, na e sobre a Alfândega do Porto, com arquitectura interior de Souto Moura, fora igualmente esmagada pelas deficientes condições de visibilidade, devido a erradas opções de iluminação, ainda por cima deficientemente concretizadas. Mais do que querer inovar, seria necessário, nestes casos, fazer apenas bem feito...
Uma terceira linha de observação diz respeito ao critério de organização da própria exp., cuja vontade pedagógica, justamente traduzida num vasto programa de actividades complementares, conduz a uma sistematização («o referente da realidade», «as estratégias da técnica», «o olhar perturbador e perturbado») que já só pode ser limitativa de um entendimento aberto e actual da fotografia. E, no entanto, não podem deixar de referir-se as expectativas sinceras com que se acompanha a consolidação de um pólo portuense de atenção à fotografia, dinamizado por Tereza Siza.