Etnologia - o museu em falta
Por ocasião de mais outra visita à exposição Pinturas Cantadas
Costuma ir-se ao MNE ver exposições excelentes. Raras mas excelentes, e quase sempre com magníficas montagens, que são uma marca da casa desde os tempos de Benjamim Pereira. Nos últimos anos, de penúria e/ou de indigência generalizada na área do respectivo instituto, são cada vez mais raras, e por lá ficam semestres, anos a fio. Aliás, são muito poucos os que costumam ir, embora ao sábado ou ao domingo haja quase sempre mais alguém na sala, duas, quatro pessoas (é muito público, é suficiente? - mas a promoção é nula). Vai-se talvez passando palavra sobre o interesse, os múltiplos interesses, das pinturas cantadas das mulheres indianas.
É difícil, porém,silenciar a estranheza face às condições de existência deste museu. Sobe-se à galeria superior para ver a exposição, passando pela galeria do piso térreo fechada há tempos infindos. Noutro lado há uma apresentação/instalação de panos africanos que por lá estaciona há anos, como pretexto para actividades juvenis. É certo que as reservas com as colecções da Amazónia e do mundo rural português são agora visitáveis (com hora marcada e acompanhamento) e que a inovação é um marco na história muito lenta da casa.
Não existe, porém , uma montagem de longa duração, ou mesmo permanente, se a palavra não for tabu, que sumarie o riquíssimo património do museu e que justifique um fluxo constante de visitas escolares e não só. A questão é inoportuna, política e científicamente incorrecta, de certeza, porque este museu aponta para outras órbitas eruditas, outros modelos. Privilegiam-se provavelmente a convergência com a investigação universitária e as recolhas de campo; recusa-se possivelmente, a ideia de uma representação eurocêntrica de vestígios dos povos do mundo, fazendo da rejeição da ideia de museu a vanguarda da museologia. E é também o passado colonial, os vestígios do Império que se recalcam, por razões de boa consciência política.

