"Governo aberto a propostas para criar projecto no Museu de Arte Popular até 2014"
Lusa 24/04/2013 - 18:38
Projecto e conceito são duas palavras-mala (mot-valise*) onde cabe tudo, em especial o que é incerto e indefinido. No título acima é estranho o "criar projecto", que no caso parece ser afinal encerrar o projecto (o do Museu de Arte Popular, dizendo-se que a colecção passou lá para cima, para o feudo do Joaquim Pais de Brito), ou abater/extinguir o MAP. Se o SEC disse isto - “O destino do museu não será um projecto museológico”, disse Jorge Barreto Xavier, acrescentando que o acervo, cujo edifício tem uma classificação de interesse público, “está a salvo no Museu Nacional de Etnologia, devidamente qualificado e classificado” - disse mal e perigoso.
O MAP é um museu, agora associado ao MNE, e deve ser pelo menos um núcleo museológico, reassumindo o seu passado único, de interesse histórico, histórico-político, etnológico e artístico. O MAP não era só um acervo (a salvo no MNE, que teve por tradição combatê-lo, desqualificá-lo, denegri-lo?), era um museu que deveria ser musealizado por si mesmo (enquanto testemunho de uma metodologia etnológica, de museografia datada mas até agora preservada com as suas qualidades e defeitos próprios, de uma política e de um tempo).
A gestão privada, sujeita a um preciso programa museológico e com sustentação comercial-turística, de qualidade, foi uma hipótese colocada quando se combateu o chamado museu da língua - e seria de toda o interesse associar o edifício do MAP à exploração do Espelho d'Água como sua extensão natural (mas este é da CML, ou seja do inimigo...). O que agora o Jorge BX parece dizer tem de ser desmontado na sua falta de fundamentação, contrariado e combatido. Aquilo não é um Páteo da Galé II, um espaço monumental para eventos - e não faltava mais nada que fosse um governo de direita (centro direita) a vir destruir um testemunho essencial do que foram os anos de António Ferro, esse salazarismo esclarecido, modernista e cosmopolita com raízes nacionalistas.
E vendo bem, há que estar confiante: “O destino do museu não será um projecto museológico”, disse Jorge Barreto Xavier, acrescentando que o acervo, cujo edifício tem uma classificação de interesse público, “está a salvo no Museu Nacional de Etnologia, devidamente qualificado e classificado”. (Apesar de não possuir acervo actualmente, o MAP está aberto ao público de quarta-feira a domingo com uma pequena exposição sobre as suas origens, quando foi criado para a Exposição do Mundo Português, em 1940. - Nã0, o Museu foi criado depois de 1940, inaugurado em 1948; em rigor, as suas origenbs vêm das expoosições dos anos 30, em especial da de Paris em 1937.)
“Queremos ter um projecto para o museu até finais de 2014”, disse o secretário de Estado da Cultura à Lusa, sublinhando que “deve estar aberto à sociedade civil”.
Ponto 1. "A pequena exposição sobre as suas origens" é uma coisa imprópria: é um espaço ocupado e não uma exp., e o vídeo que se projecta é deficiente, pelo menos. Num lugar com aquele trânsito turístico o que está visitável é uma espécie de crime. Pelo menos um atestado de incompetência.
Ponto 2. O que diz o Jorge: "o destino do museu não será um projecto museológico". Claro que não deve ser um projecto - deve ser um núcleo ou um programa, ou, melhor, um museu. Projecto é antes de ser qualquer coisa (intenção, estudo preparatório, prefiguração, etc). Como bem diz o Jorge: "Queremos ter um projecto para o museu" - pois, é para o museu, para o MAP. "Aberto à sociedade civil" também é uma boa coisa.
Ponto 3. "o edifício tem uma classificação de interesse público", mas não são só os muros, telhados e outros valores arquitectónicos; as pinturas murais de 1948 tb estão classificadas e, para além dos grandes painéis, elas estabelecem com emblemas e legendas um roteiro do edifício enquanto museu de arte popular, que se associa a elementos da arquitecura interior e às decorações escultóricas do exterior. Falta ir ver com cuidado ao texto se o que se classificou inclui mesmo a condição do edifício com a sua valência museológica precisa, e o seu mobiliário de extrema qualidade plástica e testemunhal - e por aí o seu conteúdo pleno como museu. Certamente a classificação que impediu o disparate do museu da língua, que iria ocultar todo o interior, não permite agora um projecto cultural descentrado da história e da natureza (da identidade) do edifício.O que vale é que é até 2014... Não fazem, mas também não destroem. E a crise é boa conselheira - não há dinheiro para mais coches.






