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31 de julho de 2007

Pinturas cantadas

Etnol

Bin Laden - 11 de Setembro, de Hazra Chitrakar, pormenor de uma pintura narrativa e cantada

"Pinturas Cantadas - arte e performance das mulheres de Naya" (Estado de Bengala, Índia), no Museu de Etnologia, até final do ano - sem website (IPM)

É arte contemporânea, de certeza (embora não procure ser "deceptiva", pelo contrário, e não use as "novas linguagens" que entraram em vigor c. 1968, segundo Serralves e a Sotheby's - mas o critério decisivo de classificação deve ser a data de produção actual e, por acréscimo, a abordagem de questões do presente). E é também arte popular, o que tem vindo a interessar cada vez mais este museu, antes mais dado a rigores  etnográficos. Já se falou, noutros sítios, em "arte autóctone contemporânea", mas não sei se a designação será "pós-colonial", ou neo-colonial.
É arte popular, mas (em grande parte) não tradicional, porque esta era uma produção masculina e as mulheres destas comunidades indianas não pintavam..., o que põe curiosos problemas. Outra questão muito curiosa é a condição abertamente comercial desta actividade artística feminina, organizada numa associação e destinada à venda em feiras de artesanato, a patrocinadores estatais e a um público internacional, o que também é, entretanto, indistrinçavel dos novos conteúdos destas obras, que têm a ver com a actualidade internacional (Bin Laden e o 11/9, o Tsunani) e com a vida das mulheres e da comunidade (a sida), para além das antigas mitologias locais.

O facro de não se tratar de uma actividade "ancestral", e de ser de certo modo inovadora (acompanhando a afirmação de novos papéis na fanólia por parte das mulheres), altera a relação habitual (tradicional?) com as artes ditas primitivas, aparentemente legitimadas por uma atemporalidade primordial e por uma funcionalidade ritualizada. A produção em série com origem recente e intuítos comerciais "dessacraliza" a hipotética tradição assim como os conteúdos simbólicos dos objectos, convertendo o possível carácter ritual   num simples repertório de temas narrativos e de motivos figurativos.

É uma extraordinária (invulgar e fascinante) exposição, com um bom catálogo muito acessível (10€) e para ver com vagar, porque algumas das pinturas são expostas juntamente com auscultadores (as pinturas são cantadas...) e porque há um documentário filmado em projecção constantem, feito sobre e com as mulheres artistas indianas, a respeito das obras e das suas vidas.

Exposição da autoria de Lina Fruzzetti e Ákos Ostor. Também autores do filme Singing Paintings. The Women Painters of Naya (2001-2005) que vem insuficientemente referido no catálogo.
(15-07-2007, actualizado)

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