III
Salonismo e “fotografia pura” no Barreiro
Augusto Cabrita (1923-1993): do Salão à profissão
O Barreiro foi palco de um dos mais importantes concursos de fotografia em Portugal, e tem, graças em especial a Eduardo Harrington Sena, um papel relevante e muito complexo na área do salonismo fotográfico.
O 1º Salão de Arte Fotográfica, de 1950 (inaugurado a 10 de Nov. na sede do Clube 22 de Novembro), é organizado pelo Jornal do Barreiro. O de 1951 é já do Grupo Desportivo da CUF mas restrito aos associados, o de 1952, 2º Salão, já é nacional, o 5º é já internacional, em 1955. Aí se afirma Augusto Cabrita, desde 1950 e em especial em 1952. E a partir de 1956 também Eduardo Gageiro.
Entretanto, Harrington Sena dirige a página mensal “Fotografia” do Jornal do Barreiro entre Agosto de 1954 e Julho de 1957, que de algum modo se institui como orgão do amadorismo fotográfico, depois da breve vida das revistas “Plano Focal” (4 nºs em 1953, sendo chefe de redacção Ernesto de Sousa) e “Fotografia” (dez nºs de Fev.1954 a Out. 55). Defensor da “fotografia pura", mas complacente face às posições picturialistas tradicionais (a "paisagem pictórica", de Rosa Casaco, João da Costa Leite, etc), também director do Boletim do Foto Clube 6 x 6, Sena tentou federar as agremiações amadoras, quando a sua debilidade se acentuava, em 1956.
Depois do Salão de 1950, onde dominou Adelino Lyon de Castro (e era influente na organização, no júri e no jornal o arq. Cabeça Padrão, que também fez crítica de cinema), não é de Neo-realismo que se trata no Barreiro, apesar do aplauso que continua a ser dirigido ao cinema italiano. Em 1952, Lyon de Castro, presente com seis fotos, não mereceu a atenção do júri; Cabrita ganha (só) os prémios de carácter local, sem ser neo-realista; o prémio do melhor conjunto é dado a Ernesto Szoldos…
Ladrão de Bicicletas é logo referido no 1º nº do Jonal. A crítica de Cabeça Padrão em 18/01/1951 é entusiástica. É o filme do ano, “que revolucionou a 7ª arte, com o NR impregnado por essa grande inteligência do cinema italiano que é Vitório de Sica” (10/01/52, Artur A. da Silva Vieira). No 3º aniversário do Jornal exibe-se Milagre de Milão, “obra de um génio... o reflexo mais geral dos sentimentos de um povo ainda torturado pelas consequências de uma guerra atroz” (14/05/53).
O jornal vai-se tornar em seguida cada vez mais oficioso. A tensão ideológica dessa mudança no caso da fotografia fica registada com veemência (e muita subtileza de argumentos) numa grande polémica que se segue, em Janeiro de 1954, em várias edições, à critica do 3º Salão assinada pelo “Redactor de Serviço” do Jornal do Barreiro, enfrentando o agente técnico de engenharia Eduardo Harrington Sena e o eng. Victor Chagas dos Santos
Augusto Cabrita em 1950 ganha o 1º Prémio da secção Panorâmica, com “Ruinas”, que é a capa do catálogo. (Ainda não conheço esta foto)
10 – “Barreiro – 1952”, fotografia exposta no 2º Salão de Fotografia do Grupo Desportivo da CUF, 1952, onde vence a Taça Câmara Municipal do Barreiro
(o comentário do jornal destaca então a presença de “algum simbolismo… a roda e o gancho do guindaste num sugestivo primeiro plano. Composição certa, motivo difícil” (assinado M.) Jornal do Barreiro de 8 Jan. 1953.
Publicado sem título a 26 de Fev. de 1953 na 1ª pág., representando “o trabalho operoso e fecundo que há-de fazer do Barreiro a grande cidade que todos nós ambicionamos”.
Em 1954, Fev. volta a publicar-se, a propósito de uma edição do SNI: “Alentejo” : “este guindaste poderoso… é bem o símbolo da operosa vila do Barreiro, que abriga numerosas indústrias e uma vontade forte de progredir, alicerçada nos grandes princípios que orientam a reestruturação do país”.
Com o título “Alentejo”, é exposto na IX EGAP, 1955.
E é legendado como “Av. dos Sapadores Ferroviários, de acesso à estação do Barreiro Mar”, na pág. 207 do volume Na Outra Margem. O Barreiro Anos 40-50, ed. CUF 1999. (“Alentejo” será o nome do barco atracado à muralha).
“Foot-ball ballet” no Almanaque Português de Fotografia de 1957
Uma outra fotografia de Cabrita é premiada nessa edição:
11 – “Silhuetas de hoje… nomes de amanhã”, 1952 - 2º Salão de Fotografia do GD da CUF, Taça Jornal do Barreiro destinada a premiar uma foto do Barreiro e um “assunto de carácter humano”. A crítica virá a falar dos “artistas fotográficos que vivem dos contrastes da luz”.
Reproduzida. no Jornal do Barreiro de 4 de Junho de 1953, onde é apreciada pelo seu “conteúdo humano”.
Viria a chamar-se “Foot-ball ballet” no Almanaque Português de Fotografia de 1957. E uma imagem idêntica, ao baixo, é publicada no livro Em Foco. Colecção PLMJ.
Em ambos os casos, não está presente o testemunho ou observação realista, o inquérito documental ou o realismo poético de molde “humanista” (mas talvez a sua retórica). Trabalhando com regras da “Arte Fotográfica” , o exercício da luz e da composição, a construção conceptual assenta numa carga simbólica que será lida a partir das posições ideológicas do observador: o poder do trabalho – a grandeza do Barreiro de Alfredo da Silva; a esperança no amanhã. Mas é a adequação dos processos fotográficos (suplantando com evidência o acaso da observação) que importa para o “amador”. Esvaziando a consideração do assunto temos a “fotografia pura” que E.H.Sena defende no Jornal do Barreiro.
12 – Elipse, 1953
exposto no 3º salão de Fotografia do GD da CUF e na exposição internacional do Grupo Câmara, ambos em 1953.
1954 - Sindicato Nac. dos Engenheiros Auxiliares, com medalha de prata
1955 exposta na IX EGAP.
É também a “A Fotografia do Mês” da pág. “Fotografia” de 7 de Out. de 1954, Jornal do Barreiro, sendo o autor então ainda referido como amador barreirense – a 30 de Agosto de 1956, a última página é dedicada à abertura do estúdio de Augusto Cabrita, “um estabelecimento que honra o Barreiro”.
No seu comentário, Eduardo Harrington Sena propõe uma leitura estritamente formalista: Escreve que “este trabalho… revela a importância da “luz” na fotografia” e sublinha a arrojada composição – é “um assunto simples /que não é mais do que parte da tampa dum depósito metálico/ muito bem aproveitado”.
No mesmo 3º Salão Cabrita expõe tb “O Homem e a Máquina”, uma conhecida fotomontagem que se diz simbolizar “a força dos trabalhadores no calor das indústrias”.
E tb “Serenidade” , que foi premiada.
É igualmente premiado E. H. Sena com “Sinfonia do metal“, 1952, uma foto de grandes tubagens metálicas industriais que em “A Fotografia do Mês” , Setembro 1954, é publicada como mais um exemplo da “Fotografia pura” defendida pelo autor.
A “Nova Visão” que nos anos 20 dera expressão a um culto moderno da máquina contra a Arte Fotográfica tradicional, regressa agora destituída dessa ideologia do progresso maquínico (regressa despida de “assunto”) para ser Arte Fotográfica. Uma fotografia pura idêntica à pintura pura da abstracção modernista dos anos 50.
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Voltando à presença da fotografia nas Exposições Gerais de Artes Plásticas, encontramos a IX edição em 1955, onde comparecem, além de Keil do Amaral e Augusto Cabrita, também Victor Palla (com fotografias que segundo um testemunho recolhido já anunciam o seu trabalho com Costa Martins, a fotografia de rua).
Outras movimentaçõs fotográficas estão a despontar ou a tomar consciência de si mesmas, mesmo que não venham a ter expressão pública: as de Carlos Afonso Dias, Gerard Castello Lopes, etc.
Na IX EGAP existe mais uma vez uma representação plural ou variada da fotografia, de modo nenhum uma representação de tendência. E é a maior de sempre, com nove autores, embora sem continuidade em 1956, a última.
Além de Augusto Cabrita, também vêm dos meios do salões de Arte Fotográfica, o eng. Frederico Pinheiro Chagas (amigo e coleccionador de neo-realistas) e Manuel Correia, um dos fundadores do Foto Clube 6 x 6. Avelino Braga e Alberto Cardoso são desconhecidos.
Quatro no total são arquitectos: Keil e Palla, mais Bento de Almeida (sócio de atelier de Palla) e Manuel Moreira, que expõe dez fotos de títulos intrigantes (430 C…)
Augusto Cabrita passou a ser em 1957 colaborador da RTP, operador, director de fotografia e realizador. Publica ensaios fotográficos na imprensa. Não terá sido um fotógrafo neo-realista, mas sim um salonista que passa a profissional. Um bom profissional, cuja obra cresce lentamente. Faz a fotografia do filme Belarmino em 1964…

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