Outubro já passou, mas por cá a temporada não abriu. É habitual notar-se que acaba o Verão, e costuma haver alguns acontecimentos a marcar a agenda. Um relançamento de actividades, com a projecção necessária para fazer a diferença na sucessão indiferente dos meses. Um regresso ao trabalho, um voltar de página, uma nova energia para enfrentar mais um Inverno.
Nas páginas das exposições costumava existir alguma coisa que seja notícia. Este ano não, nada, em parte alguma, e em especial em Lisboa, já que em Serralves, enfim, aparece a retrospectiva de Juan Muñoz, que sempre tem a atracção de vir da Tate Modern, com a ajuda de Todolí. (De facto, em Serralves, o Verão foi mais forte que o início da temporada, com David Goldblatt e Manuel de Oliveira, aqui transformando uma lista de filmes numa mostra muito eficaz - mas adiante).
Claro que as salas não estão fechadas, mas o que se foi inaugurando não despertou atenções, não motivou a imprensa, não animou os visitantes (potenciais), ninguém dá por nada. Porque não há nada, ou há muito pouco, para ver. O que se exibe é capaz de interessar um público especializado de candidatos a curadores, artistas pós-escolares e familiares dos mesmos - o que já é um movimento numericamente considerável de gente habituada a ver-se nos mesmos sítios - , mas tem a relevância social de satisfazer apenas um pequeno ghetto de íntimos, uma seita. Dá para preencher as agendas dos suplementos e semanários, com a habitual abundância de estrelas cúmplices, mas as notícias, quando existem, têm vindo de fora (Picasso, Rembrandt, a Vanguarda e a Grande Guerra, Mantegna no Louvre, Bellini em Roma - claro que esses são cimos inacessíveis).
Alguns acharão que vivemos no melhor dos mundos, porque por cá não se fazem "blockbusters", é tudo arte de "ponta". Não há multidões embasbacadas a percorrer a enésima exposição de Picasso, como em Paris, e não se gastam fortunas a reunir Rembrandt, como no Prado de Madrid. De facto, nem penso que seja uma questão de falta de meios (para além de ser verdade que os meios faltam), porque vai-se vendo que os poucos meios que aparecem são desbaratados.
Em Madrid, a CGD patrocinou este ano a retrospectiva dos últimos anos de Van Gogh (no Museu Thyssen). Por cá desdobra uma tarde de vídeos, que não encheriam uma sala, pelas grandes galerias da sua sede. Pela Gulbenkian (onde agora se paga para se saber o que anuncia) parece fazer-se um grande esforço para que as gentes se esqueçam que antes havia razões para a frequentar com regularidade - esvaziar o CAM já teria essa intenção. Para se integrar no pequeno mundo da arte nacional, o CCB / Museu Berardo perdeu a energia que começou por mostrar e passou a fazer o mesmo que os outros fazem, num 1º aniversário discretíssimo - é certo que o principal da colecção teve de ir para Paris (mas já tinha percorrido o Japão...), e é provável que também estejam a faltar parte das verbas que lhe estavam prometidas (tal como está a acontecer com Serralves, cancelando-se compromissos, perdendo-se aquisições pretendidas). Para fazer mais com menos, como prometia o ministro, era preciso passar das palavras aos actos...
Noutra escala de meios, Almada e Cascais, que conseguiram ser por vezes alternativas ao mainstream, passaram a fazer o que todos fazem (Almada) ou desceram as ambições - a estagnação pega-se. Se tudo isto não é o deserto, parece. É que não há onde ir, não há onde levar a família ou um estrangeiro de passagem.
Claro que as galerias continuam a inaugurar exposições, e têm gente nas inaugurações. Claro que as instituições principais têm alguma coisa nas paredes, mesmo se não têm nada "em cartaz". Mas nos Museus de Estado nem isso, e pela CML nada se passa, ou passa-se muito mal. Não é ainda por causa da crise, mas as grandes empresas (o BES, a EDP) contentam-se com "peanuts" - a ideia de responsabilidade social de uma Mapfre é outra coisa: (ver "Mapfre Fotos") . Tudo isso deve trazer uma imensa satisfação ao nosso pequeno "artworld" que só se mostra a si mesmo e algumas coisas que lhe são convenientes para a troca: arte contemporânea não falta. O problema é que falta tudo o resto que sustenta o possível interesse do público (o público em geral, sim) para acompanhar, ou só espreitar, o que é contemporâneo. Falta defender o espaço da arte enquanto necessidade vital e enquanto cultura, enquanto terreno de uma circulação social legitimada, através de uma oferta que não se dirija apenas a profissionais e a um círculo restrito de happyfews. Com as opções de gosto que se têm feito, é preferível que as prioridades orçamentais sejam a educação e a ciência - porque esta cultura (esta arte, em especial) é só uma estreita clientela e os seus interesses. Não são os directores que são incompetentes, são as administrações que são exageradamente incultas.
É ver o início da temporada lá por fora, nas capitais ou nas grandes cidades. É ver como as grandes instituições asseguram a oferta institucional necessária a uma partilha mais sadia de circulações que vão do largo interesse público ao âmbito mais circunscrito e especializado. Por cá é tudo muito uniformemente contemporâneo e em geral tudo muito medíocre. Mas o "meio da arte" está satisfeito porque está sozinho em campo. Reina num crescente deserto.

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