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07/07/2009

Comments

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Claudia

O site do NYTimes tirou o slideshow do ar por duvidas na autenticidade da afirmacao de que nao foram manipuladas. E de facto, acabei de ver agora num forum pessoas que se deram ao trabalho de analisar as fotos e mostram que ha uma serie de manipulacoes relativamente a simetria das mesmas.

fernando gonçalves

Editors' Note: July 8, 2009

A picture essay in The Times Magazine on Sunday and an expanded slide show on nytimes.com entitled "Ruins of the Second Gilded Age" showed large housing construction projects across the United States that came to a halt, often half-finished, when the housing market collapsed. The introduction said that the photographer, a freelancer based in Bedford, England, "creates his images with long exposures but without digital manipulation."

A reader, however, discovered on close examination that one of the pictures was digitally altered, apparently for esthetic reasons. Editors later confronted the photographer and determined that most of the images did not wholly reflect the reality they purported to show. Had the editors known that the photographs had been digitally manipulated, they would not have published the picture essay, which has been removed from nytimes.com.

É uma pena que isto tenha acontecido ao Edgar Martins, cujo trabalho aprecio, mas, acima de tudo, temos que defender o trabalho de gente honesta e com palavra.

Nada tenho contra a manipulação de imagens, mas já tenho tudo contra quando um fotógrafo afirma que não manipulou as imagens e se vem a descobrir mais tarde que ele mentiu.

Repito, é uma pena, mas é a verdade que conta.

ap

No site do NYT:
"Editors' Note: July 8, 2009
A picture essay in The Times Magazine on Sunday and an expanded slide show on nytimes.com entitled "Ruins of the Second Gilded Age" showed large housing construction projects across the United States that came to a halt, often half-finished, when the housing market collapsed. The introduction said that the photographer, a freelancer based in Bedford, England, "creates his images with long exposures but without digital manipulation."
A reader, however, discovered on close examination that one of the pictures was digitally altered, apparently for aesthetic reasons. Editors later confronted the photographer and determined that most of the images did not wholly reflect the reality they purported to show. Had the editors known that the photographs had been digitally manipulated, they would not have published the picture essay, which has been removed from nytimes.com."

O NYT deixa isto mal explicado: de facto as imagens reflectem a realidade que se propuseram mostrar, usando a manipulação digital para a mostrarem mais eficazmente - aliás, só em condições de uma fotografia naif, ignorante ou amadora é que o registo digital não é corrigido ou "aperfeiçoado". A manipulação (analógica) das provas fotográficas convencionais durante a impressão (o uso das mascaras, a sub ou sobre-revelação, o reenquadramento, etc) não é de "natureza" diferente da manipulação digital - outra coisa (e pode existir em ambas as práticas) é a mentira ou a mistificação graças à alteração da informação ou do sentido das imagens. Não parece ser esse o caso. O recente episódio ocorrido com uma reportagem forjada sobre a miséria no meio estudantil, premiada pelo Paris Match, configura uma situação totalmente diferente.
ADENDA: Isto não era uma resposta ao F.G., cujo comentário ainda não chegara, mas pode funcionar como tal. 1º - Estas imagens foram encenadas ou construídas por trucagem digital? Julgo que não; terão sido editadas com recurso à tecnologia digital que prolonga e completa ou aperfeiçoa a tomada de vistas informática. 2º - Parece usar-se uma abordagem convencional ou ingénua e mesmo redutora da fotografia "jornalística" mais tradicional numa situação em que se encomenda a um fotógrafo-artista (e se aceita) um trabalho artístico de propósito documental.

fernando gonçalves

Meu caro Alexandre

No meio deste triste episódio que envolve o Edgar Martins, gostaria de acrescentar três pontos:
1º - O NYT no parágrafo "Editors later confronted the photographer and determined that most of the images did not wholly reflect the reality they purported to show. Had the editors known that the photographs had been digitally manipulated, they would not have published the picture essay, which has been removed from nytimes.com." não é nem ingénuo ou redutor, mas, simplesmente, bem educado.
Quando o NYT decide retirar uma reportagem fotográfica que tinha encomendado, sabe melhor que ninguém das repercussões negativas que tal decisão acarretam para quem é sugeito de tal decisão.
Na minha opinião, o NYT não quis "carregar" ainda mais as "tintas" neste triste caso, repito.
2º - Pelo menos numa das fotos que já tive ocasião de vêr, parte da imagem original do lado direito da mesma é cortado, de forma a dar maior equilibrio à composição, e, no centro da mesma imagem, foram retirados pormenores da captação e acrescentados outros.
3º - O Edgar Martins ao aceitar esta encomenda do NYT deverá ter tido o cuidado de lêr o estatuto editorial do jornal que lhe fez a encomenda, e verificar até que ponto poderia ir no trabalho que aceitou fazer.
E neste aspecto o estatuto editorial do NYT é muito claro, relativamente ao que aceita ou não aceita sobre imagem fotográfica.

Portanto, meu caro Alexandre, não posso estar mais em desacordo com o que escreve no final do seu texto.
Os editores do NYT não foram nem ingénuos nem redutores na apreciação/decisão quanto às fotos apresentadas pelo Edgar Martins.
E se alguma dúvida existe sobre isso basta notar que eles tiveram o cuidado de contactar primeiro o Edgar Martins e só depois decidiram eliminar aas fotos do site do NYT.
O que eles perguntaram ao EM e as respostas que obtiveram só eles sabem, mas que o EM não respeitou o estatuto editorial do NYT, sobre isso, infelizmente, não tenho dúvidas
Cumprimentos
Fernando Gonçalves

ap

Concordo com os pontos 1 e 2, e com a designação triste episódio - é para já um equívoco e desagradável episódio. Insisto porém na ideia de que estas imagens "reflectem" perfeitamente (demasiado perfeitamente?) a realidade que se propõem mostrar. E discordo da ideia de alguém ir ler (ter de ir ler) o estatuto editorial, a não ser que tal tenha sido pedido ou imposto ao EM, como um condicionamento a respeitar pelo seu trabalho.
Pelo que já conheço dos exames feitos a várias das imagens, existe uma extensa manipulação que ultrapassa em muito o recurso corrente ao photoshop para limpar, "acertar" a cor, retocar, corrigir ou aperfeiçoar um registo fotográfico - há uma intervenção minuciosa ou miudinha, sobre muitos pequenos elementos, que parece ser obsessiva e finalmente inútil. Não me incomoda que essa manipulação exista, nem ela altera nada de substantivo ou significativo, mas é absurdo que o texto que acompanha as imagens tenha de início negado a intervenção digital. A ideia de fotografia digital sem pós-produção parece-me um contra-senso - mas esse equívoco é da responsabilidade do Edgar ou ou do NYT? A discussão está acesa em NY.

Pedro dos Reis

Alexandre, nao querendo empolar ainda mais a situacao, tambem nao consigo concordar inteiramente com os argumentos que esta' a querer expor.

O que se passa aqui nao e' a questao da imagem ser ou nao ser manipulada e nem vale a pena estar a desviar a atencao para essa guerra, que se sabe 'a partida que e' do foro religioso.

A afirmacao dos editores do NY Times nao da' margem para duvidas: "Se os editores soubessem que as fotografias eram manipuladas digitalmente, nao teriam publicado o respectivo ensaio e dai que o tenham retirado". Isto para mim e' claro, nao e' uma atitude pequenina ou mesquinha, e nao me deixa margem para quaisquer duvidas.
Mais, concordo que o tom usado no comunicado foi bastante leve e ate' de certa forma condescendente com o Edgar Martins.

Como ja' lhe tive oportunidade de dizer, mentir aqui e' crime e punivel com prisao, ate'.
Chama-se "perjurio" e neste caso especifico envolve a imagem de um jornal com uma reputacao a manter e que tem regras editoriais proprias em relacao 'as imagens que publica.
Entre elas a nao publicacao de material manipulado.

Justificar que o Edgar Martins nao tinha de saber as regras editoriais e que se deveria ter limitado a fazer o seu trabalho como sempre faz e' nao querer aceitar que existem regras ou que mesmo se existem, nao tem de ser conhecidas.

Ha' que separar o Edgar Martins artista e o Edgar Martins foto-jornalista.
Agora nao se trata de um premio, uma exposicao, mas sim o de cumprir uma funcao, que lhe fora pedida especificamente e que foi pedida por ele insistir que nao manipulava as suas imagens de forma alguma.
Agora vem-se provar que nem era a primeira vez...

Isto nao retira a forca dos seus projectos, da forma como os expoe, investiga, etc... ainda que o lado conceptual dos projectos que realiza nao seja o mais focado. Talvez ele se concentre na procura da simetria que nos foi habituando e ainda num lado narrativo e quase literario (como o Alexandre sublinha no novo post).

Tentando ser pragmatico e porque o processo ainda decorre, penso que o melhor e' nao estarmos a tomar partido, sem sabermos dos factos. Ate' porque os factos, da forma como estao apresentados nao jogam a favor do Edgar Martins

Antes de mais penso que o mais sensato seria o Edgar Martins justificar-se publicamente sobre o sucedido.
Agora o fotografo que esta' na "banco dos reus" e'-nos mais proximo e por isso temos esta tendencia a perdoar ou a nao querer ver, mas nao se perdoou o fumo exagerado de Beirute ou o missil que nunca foi disparado algures no Irao.
Ha' que haver alguma justica nas nossas accoes e nao termos dois pesos e duas medidas.

E ao dizer isto peco reflexao e nao estou a querer arrastar ninguem para a "lama".
O que aconteceu nao se justifica e embora todos possam estar agora a questionar se gostam ou nao das imagens do Edgar Martins, essas imagens nao mudaram. Sao as mesmas.

Resta saber se, tal como os editores do NY Times afirmam no seu comunicado; se soubessemos que as imagens eram manipuladas, se iriamos olhar para elas da mesma forma.

Agora o que esta' em jogo, nao e' exactamente este ponto, mas o facto de nao ter falado a verdade.

Claudia

Justificar que a realidade não foi alterada é um argumento fraco e falível sobretudo quando se provou por a+b que algumas das fotos foram construídas. Não são pormenores miúdinhos como diz. São metades de fotos copiadas e flipadas para tornar a foto simétrica. Com a agravante de ter usado técnicas para disfarçar a simetria falsa.

E basta pesquisar no google e ver todas as entrevistas que o Edgar deu. Parece evidente que a "linha de marketing" no sentido de se diferenciar de outros fotógrafos é precisamente a de declarar que não faz qualquer tipo de alteração às imagens (aliás esse é também o "slogan" que a Aperture usou para promover o seu livro). É um statement poderoso. A técnica nua e crua que fazem dele um fotógrafo extraordinário para além de tudo o mais. Ora se este mito cai por terra, o Edgar com certeza que se passará a auto-denomiar Artista Digital. E porque não? Ele é excelente!

Entretanto, no site onde foi primeiro descoberto a manipulação das fotos, estão-se a organizar para ir a alguns dos locais fotografados para tirar as fotos "verdadeiras". Isso em si dava uma exposição em qualquer galeria bem interessante.

ap

Pedro, os editores não dizem que o Edgar disse que as imagens não eram alteradas digitalmente, nem que o convite impunha condições técnicas de realização. Dizem que se soubessem que eram manipuladas não as teriam publicado - é diferente e coloca a "culpa" ou o erro do seu lado. Parece-me claro que as condições de "verdade" que são verdade para o NYT não foram negociadas à partida (e por isso não foram falseadas) e que os editores revelam uma dupla ingenuidade: não olharam com cuidado para as imagens e cultivam uma concepção estreita de documentário fotográfico (independente das diferenças processuais entre analógico e digital). Ou, tripla ingenuidade: convidam ou aceitam um artista para produzir uma investigação a publicar num portfolio de revista, e querem fotojornalismo rigidamente testemunhal.
Parece provado que o EM referiu algumas/muitas vezes a ausência de manipulações digitais no seu trabalho (mas a propósito de todas as suas imagens ou só de algumas em concreto?). O que é mais óbvio, porém, é que são os comentadores ou apresentadores que asseguram essa ausência sem o citarem como fonte directa - note-se que a frase "creates his images with long exposures but without digital manipulation", na apresentação do portfolio, não lhe é atribuída, o que seria de elementar correcção ou prudência. Para lá do que ele mesmo diz do seu trabalho (e para lá do que isso importa, ou não), os observadores vêem o que sabem ou querem ver, acreditam no que julgam reconhecer ou querem supor.
Se o Edgar mentiu (às vezes/sempre?) sobre os seus processos de trabalho ("O poeta é um fingidor"...), também é certo que as suas declarações públicas e os seus textos são sempre dirigidos a alargar o debate sobre a fotografia, a sua vinculação ao real e as respectivas insuficiências. EM tem colocado a fotografia perante questões de percepção e construção, observação formal e significado, entre o reconhecimento e a ilusão, numa plataforma de diálogo que quer situar em terreno filosófico. "These photographs positioned in the gray area of fact and fiction, reality and allegory" escreve Roy Exley na apresentação de The Diminishing Present. Na mostra recente no CCB expôs ao lado de provas fotográficas algumas insólitas imagens produzidas a partir de desenhos e de alterações aleatórias (?) dos seus suportes - pareciam grelhas fotografadas e não eram, nem desenho nem pintura.

ap

Adenda: 1 - Eu não sei nem quero separar o Edgar Martins artista e o Edgar Martins foto-jornalista. Não há duas essências identitárias prévias à sua obra e em que ele deve instalar-se para trabalhar ou em que nós o devemos situar para o vermos. A fotografia é, aliás, isso mesmo, esse trânsito sempre incerto entre registo e criação. Ele não é um fotojornalista quando publica uma encomenda num jornal, tal como um escritor, investigador, ensaista, etc, não é ou não passa a ser jornalista. As regras não são as mesmas para todos, génios e medíocres, inventores e rotineiros, mas não há prateleiras prefixadas. (Excepto se as regras são negociadas e aceites à cabeça.)
2 - A réplica em espelho da meia casa de madeira não esconde habitantes que aí vivam ou operários que estejam a construir; não altera a informação, não é uma prova forjada, não mente. Pelo que se conhece do "original" (pouco credível como original, aliás), é um exercício gratuito (inútil, insólito, perturbador e por isso desafiador de interrogações e de polémicas) que se oferece à tentação e ao desafio de viciar uma simetria já por si viciosa.

fernando gonçalves

Meu caro Alexandre

Fico espantado com a sua linha de raciocinio para defender o EM.
Segundo o Alexandre "os editores não dizem que o Edgar disse que as imagens não eram alteradas digitalmente, nem que o convite impunha condições técnicas de realização. Dizem que se soubessem que eram manipuladas não as teriam publicado - é diferente e coloca a "culpa" ou o erro do seu lado. Parece-me claro que as condições de "verdade" que são verdade para o NYT não foram negociadas à partida (e por isso não foram falseadas) e que os editores revelam uma dupla ingenuidade: não olharam com cuidado para as imagens e cultivam uma concepção estreita de documentário fotográfico (independente das diferenças processuais entre analógico e digital).

Acontece que o Alexandre, suponho eu, não conhece as condições e as conversas havidas entre os editores do NYT e o EM.
Portanto, e no mínimo, parece-me arrojado da sua parte concluir, face à falta dos elementos concretos que referi, o Alexandre concluir que os editores do NYT foram ingénuos, fundamentalistas e distraidos.
Para mim não foram nada disso, limitaram-se a ser bem educados e a não "fritar" o EM na praça pública.

Mas este triste caso tem muitos outros, e variados contornos, como, por exemplo, o mail enviado por EM a Jorg Colberg (http://www.jmcolberg.com/weblog/)justificando a não resposta a um mail que lhe foi enviado pelo JMC dizendo que estava em viagem e a maior parte do tempo sem acesso à net, quando, segundo o semanário SOL online de hoje, o EM está em Portugal e foi contactado pela Lusa sobre o assunto, e todos nós sabemos que a cobertura da net no território português é quase a 100%.
Face à gravidade da situação, o silêncio do EM é aterrador. Mas é a opção dele.
Finalmente, meu caro Alexandre, como não pretendo entrar em polémica consigo, esta vai ser a minha última intervenção neste triste episódio.
Cumprimentos
Fernando Gonçalves

Pedro dos Reis

Alexandre,

Pelo que se da' a entender - atraves das justificacoes dadas pelos editores (e que sim, nao contemplam palavras expressas pelo Edgar Martins), a escolha do Edgar Martins para este trabalho vem na sequencia das suas afirmacoes sobre o seu processo de trabalho em que ele diz que nao faz manipulacao da imagem.

Eu poderia dizer que toda a gente esta' a falar do assunto e que nao existe prova, mas o facto e' que na apresentacao que o Edgar Martins fez na Aperture e onde estive presente, ele fez questao de focar esse ponto. Mesmo quando as pessoas da audiencia lhe fizeram perguntas duvidando e dando-lhe a hipotese de ele se explicar melhor, as suas palavras foram assertivas, ou seja, era um ponto sem discussao e penso que todos quiseram acreditar no que ele disse (embora a duvida continuasse). Neste caso, eu ouvi-o pessoalmente dizer isso e posso associar as palavras no NY Times, como suas. So' nao o cito, porque nao costumo andar com um gravador no bolso, mas a ideia que retive foi a mesma que se pode ler no NY Times - fotografias tiradas com longas exposicoes e sem qualquer manipulacao digital.
A propria Aperture enaltece esta qualidade fotografica do Edgar Martins aqui: http://www.aperture.org/edgar-martins-topologies.html

Penso que a maioria das pessoas quando pensa nas imagens recentes do Edgar Martins, pensa exactamente nessa linha estetica simetrica, com linhas de horizonte e que com o facto de nao serem manipuladas causam grande admiracao e interesse pelo seu trabalho.
Agora se se prova que esse resultado e' afinal e contrariamente ao que ele afirma, o resultado de uma manipulacao, entao essa imagem de marca e' abalada.

Os editores do NY Times foram de facto ingenuos, mas se o foram foi porque confiaram no fotografo e nas suas afirmacoes, que lhe tem igualmente trazido reconhecimento (e sem descurar as imagens que nos presenteia).
Mas penso que alguns pontos que o Alexandre afirma estao de facto evidenciados no discurso original. Mesmo neste post onde se le "Martins, who creates his images with long exposures but without digital manipulation", esta afirmacao e' uma assumpcao que ja' vem detras, como por exemplo da Aperture "With artful composition and controlled framing—but no digital manipulation—Edgar Martins creates sublimely beautiful views of often un-beautiful sites."; e que e' mantida e frisada pelo Edgar Martins, nos seus discursos publicos.

Nao penso que seja alguem que esteja a por estas palavras na boca do Edgar Martins ou que hajam segundas leituras sobre o assunto.

Sobre as condicoes tecnicas de realizacao, o blog do NY Times, neste artigo (http://lens.blogs.nytimes.com/2009/07/08/behind-5/?scp=1&sq=edgar%20martins&st=cse) realca a "policy" do jornal, que e' o que da' reputacao, em termos das imagens que publica "Images in our pages, in the paper or on the Web, that purport to depict reality must be genuine in every way. No people or objects may be added, rearranged, reversed, distorted or removed from a scene (except for the recognized practice of cropping to omit extraneous outer portions).". Mais uma vez e' peremptorio e sem margem para qualquer duvida. Neste caso e contrariamente ao que o Alexandre procurou transmitir, nao ha' diferenciacao relativamente a quem as cria, desde que o proposito seja uma representacao da realidade, tal como era neste caso; e assim sendo existem regras que tem de ser respeitadas por todo e qualquer um que esta' a trabalhar com o jornal.

Se eu fosse um dos editores do NY Times, consciente das imagens que tenho de seleccionar para o meu jornal e tivesse a informacao de que um fotografo, pela sua pratica fotografia - que assume a nao manipulacao digital das imagens que cria (apenas as longas exposicoes), eu iria contacta'-lo para trabalhar para mim. Ainda para mais, quando as imagens tem um aspecto formidavel.
Imagino que este ponto tenha sido discutido entre ambas as partes, com certeza.

Sobre o resultado do trabalho, a pesquisa e as afirmacoes, nao as ponho em questao e tambem nao penso que seja isso que tem vindo a ser discutido ultimamente.

Julgo que nao valera' a pena lutar contra "moinhos de vento". O melhor sera' aguardar que o Edgar Martins explique o seu lado da historia. Acho que todas as pessoas que o apoiaram merecem isso.
Caso contrario esta situacao transforma-se numa disputa clubistica.

ap

Mais uma vez obrigado, Pedro e Fernando. Este é de facto o tema que foi aqui, até agora, mais discutido - infelizmente. E a questão da verdade ou mentira de afirmações antes produzidas (por um autor, um artista) sobrepõe-se ao tema sempre fugidio e definitivamente problemático da verdade da fotografia. De facto, o Edgar foi dizendo repetidamente (em entrevistas e diálogos com o público) coisas como esta:
http://artmostfierce.blogspot.com/ (April 29, 2008)
Edgar Martins Topologies Book @ Aperture Foundation
"When I photograph I don’t do any post production to the images, either in the darkroom or digitally, because it erodes the process. So I respect the essence of these spaces.
When you become a perfectionist, the perfection takes over, you know? And that really skews the overall meaning of the image. So that ‘s why I try to make the images as organically as possible… But I don’t have anything against digital photography."
Não vai ser fácil justificar ter dito o que não precisava de dizer.

Miguel Amado

Caro Alexandre e restantes participantes,

Sempre assumi que a condição fotográfica se define pela manipulação do real, seja na tomada de vista seja na pós-produção (tanto na era analógica como na digital). Por isso, encaro como natural o tratamento das imagens. Desde que vi, pela primeira vez, fotografias do Edgar (em 2002, na sua exposição de finalistas do Royal College of Art, em Londres, que continha obras da série “Buracos Negros e Outras Inconsistências”) que o trabalho dele me chamou a atenção. Se, nessa ocasião e noutras posteriores, não me pareceu que houvesse algum ou muito trabalho de pós-produção, quando vi as suas últimas séries intuí que essa era, agora, uma característica fundamental. É crível que os céus das praias fossem tão negros ou que a simetria dos elementos em determinadas paisagens fosse tão perfeita? A fotografia publicada pelo jornal “Público”, em capa, da exposição relativa ao BES Photo, que estava no Museu Colecção Berardo, é um bom exemplo de que uma observação atenta repararia necessariamente na “irrealidade” destas imagens. Ora, o poder das obras do Edgar reside precisamente na ilusão da transparência fotográfica, resultante do seu extremo uso da “deadpan aesthetics” celebrizada pela Escola de Düsseldorf, onde se tenta anular a “expressividade” autoral. Para mim, seria por isso que os editores do The New York Times o convidariam a realizar um portfólio, não por pretensamente fotografar “com longas exposições mas sem manipulação digital”. Aliás, quando li a introdução ao portfólio (salvo indicação contrária, escrita por Charles Wilson, que assina as notas que acompanham cada fotografia impressa na revista e online), achei estranha esta referência, mas não lhe liguei, porque para mim tal é irrelevante, tão irrelevante quanto claro como a água é a evidência do tratamento das imagens. Relevante é o discurso que as fotografias tecem, neste caso acerca do “crash” do mercado imobiliário nos EUA e, consequentemente, enquanto reflexo da crise económica global e alegoria da situação contemporânea.
Centrar a discussão na técnica inscreve-se na ideologia do “negativo integral” dominante no “corpus” fotográfico e daí a reacção do The New York Times e dos demais participantes, tanto em Portugal como no estrangeiro. Este modo de encarar a fotografia perdeu a sua pertinência, se é que alguma vez a teve, e o que me choca não é se o Edgar alguma vez disse ou escreveu que não tratava as imagens, mas o simples facto de tal constituir matéria de análise das fotografias e de escrutínio do seu carácter.

Abraço,

Miguel


PS. Pedro, a citação actual do site da Aperture Foundation, que publicou a monografia do Edgar, é a seguinte: “With artful composition and controlled framing Edgar Martins creates sublimely beautiful views of often un-beautiful sites.” Tu citas a mesma passagem mas com a menção “—but no digital manipulation—”; será que a Aperture Foundation é expedita ao ponto de já ter suprimido esta referência? Mas, mais importante, muda alguma coisa ao discurso o facto de haver ou não haver alusão à “manipulação digital”? Por mim não e o mesmo parece ser também para a Aperture Foundation, que se terá dado ao trabalho de suprimir esta referência mas achou que o resto do texto poderia permanecer intocável. Ora, não há melhor prova do que esta da irrelevância da centragem da discussão na técnica, em vez de na estética, das fotografias do Edgar.

jackb

this is funny, APERTURE, that published his last book changed the book description on their website!
it was like this (google cache)

http://209.85.229.132/search?q=cache:qZDktU6HTycJ:www.aperture.org/books/browse-by-photographer/i-m/edgar-martins-topologies.html+topologies+digital+edgar&cd=3&hl=pt-PT&ct=clnk&gl=pt

and now it's like this
http://www.aperture.org/edgar-martins-topologies.html

Now, do you see the difference on the sentence

With artful composition and controlled framing—but no digital manipulation—Edgar Martins creates sublimely beautiful views of often un-beautiful sites.

that changes to

With artful composition and controlled framing Edgar Martins creates sublimely beautiful views of often un-beautiful sites.


funny, no?

Mário Nogueira

Caro AP,

Só hoje li os comentários, e creio que tudo está dito. Gostava apenas de acrescentar mais uma nota, que copio de um comentário que coloquei no Arte Photographica:

E já agora, o que dizer do "Topologies"? Reparo com curiosidade que a página da Aperture foi alterada; onde se lia "With artful composition and controlled framing—but no digital manipulation—Edgar Martins creates..." pode-se ler agora "With artful composition and controlled framing Edgar Martins create...". Notam a diferença?

Versão antiga na cache do google: http://209.85.229.132/search?q=cache:qZDktU6HTycJ:www.aperture.org/books/browse-by-photographer/i-m/edgar-martins-topologies.html+topologies+digital+edgar&cd=3&hl=pt-PT&ct=clnk&gl=pt

Melhores cumprimentos,

Carlos França


I
Gostaria de não circunscrever este meu comentário exclusivamente ao caso despoletado pela linha editorial do N. Y. Times, em que o fotógrafo português Edgar Martins se vê de repente envolto num "escândalo" pelo facto de supostamente ter manipulado imagens ou de ter usado indevidamente uma técnica que "em si" torna possível passar do real à fotografia sem que os grandes especialistas da arte do "trompe-l’oeil" tenham dado por nada, ao ponto de serem incapazes de distinguir, com clareza, a imagem do objecto representado. Uma primeira observação: o digital tem um código e um estilo "veristas" que nunca chega a comprometer o jornalista-paparazzi mas apenas o artista iconoclasta. A. Pomar tem razão quando de forma pertinente cita Pessoa: «o poeta é um fingidor». Certamente. E podemos acrescentar que o fotógrafo é um "digitalizador/manipulador que deveras reinventa", sem que com isso procuremos pôr em causa a sua condição de artista-fotógrafo.

II
A "ética-visual" da imagem é decidida e sentenciada "a priori" pela verdade massmediática de um poderoso órgão de comunicação social americano que “condena” o artista-fotógrafo Edgar Martins à "não publicação" das suas fotografias pelo facto delas terem sido in-voluntariamente manipuladas, tendo o artista, assim, desvirtuado as regras do jogo. A história das imagens não publicadas está cheia deste tipo de equívocos e sanções mais ou menos institucionais. Em termos da teoria da arte podemos dizer que o real procura disputar sempre mais realidade à sua sombra. A imagem de arte torna-se, assim, num objecto segundo em relação à realidade e, no caso do N. Y. Times, a arte fotográfica do Edgar M. acabaria por degradar ainda mais a realidade ao elevá-la à categoria de simulacro perfeccionista através de imagens analógicas e digitais, mais ou menos manipuladas, ainda que ele o faça sem nenhuma finalidade.

Numa época de crise como a nossa, nada melhor do que os jornais darem para consumo dos seus leitores imagens “verídicas” a preto e branco que testemunhem os traumas sofridos pelas vítimas. Todos nós conhecemos a “imparcialidade” da imprensa americana e a do mundo em geral, sobretudo em assuntos de natureza política e militar! Acho ainda mais irrisório o argumento da imagem manipuladora, porque uma imagem é tida por verdadeira ou falsa não só por aquilo que representa, mas também por aquilo que é escrito ou dito sobre o que ela supostamente representa. No caso da imagem fotográfica, a interacção dos regimes de imagem (verdade/falsidade) entra de imediato em rota de colisão. Edgar Martins, a meu ver, neste seu trabalho para o N. Y. Times, acaba indirectamente, por suscitar sobretudo algumas questões cruciais no tocante à imagem, ao acentuar através dela a clivagem entre verdade mediática e falsidade artística (e vice-versa) ou ao confrontar o foto-jornalismo com a estética do artista-fotógrafo.

A obra de arte na era da manipulação digital é uma pista pós-benjaminiana que pode ajudar-nos a perceber melhor o que está em jogo nesta querela menor entre o N. Y. Times versus Edgar Martins. Roland Barthes no livro "L’Obvie et l’Obtus" conta que em 1951, uma fotografia que correu toda a imprensa americana tinha custado o lugar a um senador (Millard Tydings) porque "mostrava" esse senador a conversar com um líder comunista (Earl Browder). Veio-se mais tarde a saber que se tratava de uma fotografia "trucada"; a dita "trucagem" fotográfica consistira na aproximação artificial dos dois rostos. Esta manipulação, pelo menos, neste caso, estava objectiva e ideologicamente ao serviço de uma finalidade política reaccionária e mesquinha.

Nalguns casos, as fotografias de Edgar Martins tornam-se literalmente impossíveis de serem descritas em termos realistas, devido à “ambiguidade” ontológica e estética dos seus códigos quer eles sejam analógicos, digitais ou outros. Mas isso é um traço singular do seu estilo que diz respeito exclusivamente à condição estética da imagem e não ao perfil psicológico do seu autor.

III
O que eu gostava de deixar bem claro neste meu comentário que já vai longo é que a plenitude da esfera digital (independentemente do que cada um entenda pelo conceito técnico de manipulação) não pode, neste caso, servir para afectar a credibilidade ética do artista Edgar Martins.

O mais lamentável nesta querela é ver a facilidade e o tom com que um certo tipo de argumentação toma logo partido pelo “corpo redactorial do N. Y. Times” esquecendo por completo que o que está em jogo é o direito do artista Edgar Martins em afirmar a sua total liberdade de criação com responsabilidade e no exercício pleno dos seus direitos de autor.

Uma obra de arte é sempre susceptível de várias interpretações e em caso algum se pode em nome de uma delas, pretender intervir sobre o conteúdo da obra ou sobre a forma técnica da sua execução, exigindo para o efeito a sua modificação ou proibição.

Um abraço para ti
Carlos França


Pedro dos Reis

Olá Miguel,

A resposta à tua questão foi dada pela cache do Google, indicada pelo Mário Nogueira. Se houvesse irrelevância da mesma, não teria sido retirada, mas como sabes, as pessoas ou entidades nos EUA podem ser processadas e pagar legalmente pelo que dizem e não dizem (ou que está ou não escrito).

Relativamente às razões que apresentas sobre as imagens do Edgar Martins, tens toda a razão e eu já manifestei que não tenho nada contra à manipulação na fotografia. Como foi sendo dito, a fotografia é em si mesma uma manipulação da realidade, pelo que é um ponto irrelevante para esta discussão.
O Andreas Gursky faz manipulação, o Jeff Wall idem e são dois fotógrafos pelos quais tenho uma grande admiração.

O que se está a discutir não é o facto do Edgar Martins manipular ou não as belas imagens que sempre criou (ou pós-criou), mas o facto de ele mentir sobre a forma como ele as produziu.
Afinal não foi um virtuosismo durante a tomada de vista, mas sim na pós-produção (usando as tuas palavras).
Talvez, e aqui estou a extrapolar, dado que hoje em dia se vive um excesso de pós-produção se houver alguém com imagens de grande qualidade e que se diz nunca usar qualquer manipulação, obviamente que isso traz uma grande admiração extra sobre essas imagens.
O ponto em questão é apenas e exclusivamente este.

O valor de uma situação quase irreal que é captada, não será exactamente o mesmo de uma situação pós-produzida.
Agora poderíamos reflectir acerca do que é o valor, enquanto conceito e até existem algumas analogias, que embora distintas se poderiam usar. O valor de uma pérola natural e o valor de uma pérola produzida em cultura; o valor de um diamante extraído da natureza e outro feito em laboratório, etc...
Os resultados são os mesmos, mas os valores que uns e outros têm não. Alguém consegue explicar isto?.. Não... São sistemas de valor que não têm racionalidade alguma, visto que os resultados são iguais. Talvez até mais perfeitos, quando feitos em laboratórios ou com processos controlados.

Argumentar a estética do "deadpan" e a anulação do autor, não justifica o facto em discussão. Os Becher para criar as imagens dos "monumentos" industriais do Vale do Rühr fotografavam em condições específicas, para que os resultados fossem aqueles que conhecemos. A discussão que criaram e que fundou o que se conhece como Escola de Düsseldorf não seria diferente do que a que foi criada, mas no entanto, se essa escola se manifestasse como a escola onde haviam os melhores técnicos de pós-produção, talvez não tivesse tanto impacto. Digo talvez, pois nunca foi um ponto em discussão, mas também nunca mentiram sobre o facto de poderem fazer crops, por exemplo.

Sobre a credibilidade das imagens, realmente tens razão. Era muito difícil conceber os céus tão pretos e outras características, mas dado que isso foi perguntado ao fotógrafo e ele diz que não o faz... é preciso haver alguma confiança e pensar que afinal temos de trabalhar mais para podermos ser uns fotógrafos excepcionais. É claro que quem fotografa tem dificuldades em aceitar a afirmação (uma longa exposição de noite e com luzes fortes quando muito clareava o negativo, ainda que a sensibilidade do filme pudesse ser 50; para além de que muitas das imagens criadas e que apresentam candeeiros mostrariam luzes levemente "estreladas" e não luzes sem definição que apontam para aberturas não tão apertadas, quanto isso), mas temos de confiar uns nos outros e se alguém arrasta um discurso consigo onde este facto é uma constante, o que dirias? Irias desconfiar e contrariar as palavras do autor? Chamar-lhe-ias mentiroso e que não podia ser nada daquilo que ele diz?

Acho que o que dizes no final da tua participação mais uma vez aponta o problema para uma guerra religiosa e que nunca será curada dentro da fotografia e que pertinente ou não, não é o que se está a discutir aqui. O que se está a discutir são falsas afirmações do autor.
Se a mentira explícita é algo aceitável então no que é que se deve acreditar?

Com certeza conheces um trabalho que faz exactamente o oposto, do Andrea Galvani, onde ele não usa manipulações, mas tem um corpo de trabalho que aborda justamente essa irrealidade.
Se falaste com ele, sabes que a forma como trabalha obriga a uma encenação da realidade, mas de forma cuidada e que não é um simples copy&paste.
Como o classificas relativamente ao trabalho do Edgar Martins, por exemplo?
Aqui te deixo dois autores, com abordagens que à partida seriam semelhantes e que agora trabalham o mesmo tema, mas por pontos de vista opostos (o Andrea Galvani na captura de imagem e o Edgar Martins na pós-produção).

Abraço,

Pedro

Pedro dos Reis

Miguel,

Desculpa-me porque nem te respondi em relação à situação da Aperture em condições.
Claro que se a Aperture Foundation tem (imagino eu) milhares de livros impressos, não se vai agora desfazer deles. A tua resposta será dada pela aderência do público em comprar ou não o dito livro.
Será uma pós-relevância (já que o "pós" voltou a entrar na moda dos chavões).
Repara também que não retirou a citação de John Beardsley (somente a referência à não manipulação), mas será que o John Beardsley iria dizer o mesmo agora? Ele refere um "ilusionismo que faz fronteira com a magia", mas saberia ele que as imagens foram pós-produzidas ou estaria ele a basear-se no facto de ter sido levado a acreditar que não existia manipulação?

Por outro lado, a galeria Betty Cunningham retirou o Edgar Martins da lista dos seus artistas. Será isto relevante?

Abraço,

Pedro

Pedro dos Reis

Alexandre,

Acho que me deveria dar direito de resposta ao Miguel Amado e como tal, que publicasse os comentários que lhe enviei.

Obrigado

joana

Em relação a este caso, só tenho a dizer que, do ponto de vista estritamente ético, trata-se de um caso gritante de falta de honestidade, agravada pelo facto de ter sido uma atitude premeditada. Os fins não justificam os meios.

carlos afonso

"Se o Edgar mentiu (às vezes/sempre?) sobre os seus processos de trabalho ("O poeta é um fingidor"...), também é certo que as suas declarações públicas e os seus textos são sempre dirigidos a alargar o debate sobre a fotografia, a sua vinculação ao real e as respectivas insuficiências. EM tem colocado a fotografia perante questões de percepção e construção, observação formal e significado, entre o reconhecimento e a ilusão, numa plataforma de diálogo que quer situar em terreno filosófico." Isto é o Alexandre Pomar a escrever ou a citar o Edgar Martins?
Acho que se está a tentar desculpar o que não tem desculpa. O problema não é a manipulação digital das imagens mas sim a manipulação da verdade e do embuste comercial construído em torno de uma falsidade: o fotógrafo purista! O fotógrafo que expõe as suas imagens à noite sem qualquer controlo dos resultados obtidos (quando em todas as imagens noturnas os negros foram "fechados" artificialmente em photoshop) ! O rei vai nu mas há quem não o queira ver. A procissão passa, uns aplaudem e o business floresce...

akb

(o comentador anterior tem muita razão.)
pelo que tenho acompanhado desta discussão, ela está a centrar se muito sobre a temática da alteração/modificação das fotos, quando o que acaba por estar em causa é toda outra coisa. (a manipulação de fotos é quase tão velha como a própria fotografia.)
temos o fotógrafo “da moda”, (nitidamente levado ao colo), o qual mostra umas fotos bonitinhas sobre as quais tece altas considerações teóricas. que alimentam debates e discussões e “levantam questões” etc. etc.
ora vem a descobrir-se que toda esta teoria, ao invés de servir como fundação para o trabalho do artista, não passa de um presunçoso conjunto de considerações de circunstância, habilidosamente construídas a posteriori e que, ainda por cima, são baseadas em falsidades.
em suma: a teoria desmorona-se, não é uma base, é uma habilidade ad hoc.
deixa-se de acreditar (pelo menos assim acontece comigo) na pessoa do edgar martins, tudo o que dele parte é posto em causa.
julgo que isto é ameaçador para a crítica de arte (e aqui vai a minha teoria, também posso construir uma) porque expõe a sua própria fragilidade, a leveza e frivolidade (de grande parte) do discurso vácuo, insustentado e circunstancial, que encontramos abundante, quotidianamente nos media.
julgo que, em parte, virá daí a omissão, a recusa de tanta gente ligada a este negócio em reconhecer tudo isto como sendo nada mais que uma caso de fraude.

Miguel Amado

Caro Alexandre,

Apesar de parecer que os ânimos já arrefeceram, não gostaria de deixar de contribuir apenas um pouco mais para este debate, sobretudo porque fui directamente interpelado pelo Pedro Reis. Neste momento, afigura-se-me desnecessário responder ponto a ponto, por isso tentarei sintetizar as minhas observações.

1) Já não se percebe se a questão está no tratamento digital ou não das fotografias ou se está no facto de o Edgar ter dito ou não que não tratava digitalmente as fotografias.

Quanto à primeira hipótese, repito que, para mim, é indiferente se as fotografias são ou não tratadas digitalmente, porque o processo é irrelevante face à imagem. Aliás, importa esclarecer os seguintes aspectos: a) as fotografias tanto podem ser tratadas digitalmente, alterando a “realidade fotografada” a posteriori, como podem essa “realidade fotografada” ser alterada a priori, antes da tomada de vista, por exemplo quando o/a fotógrafo/a compõem o enquadramento ou mesmo quando compõem o cenário; b) o tratamento da imagem a posteriori sempre existiu, por exemplo com técnica de impressão em câmara escura como as máscaras ou o retoque na prova impressa – pergunta-se: há alguma diferença ontológica entre isso e o tratamento digital? Para mim, não há. A “realidade fotografada” nunca corresponde à “realidade real” mas é o ponto de chegada da leitura subjectiva que o/a fotógrafo fez dessa “realidade real”. As própria palavras do Edgar explicitam esta assumpção: “In a study that goes beyond pure formal investigation and documentation, this work catalyses and reunites new experiences of a new form of American architecture: 'the ruins of the gilded age'.”

Quanto à segunda hipótese, se o Edgar disse ou escreveu, alguma vez, que não tratava digitalmente as fotografias e, pelo contrário, o fez, então só tem que se desculpá-lo por isso, não iniciar uma dinâmica de questionamento do seu carácter. Parafraseando a referência judaico-cristã, “quem nunca pecou que atire a primeira pedra.” Só a título exemplificativo, numa das tabelas da exposição “The Pictures Generation, 1974–1984”, em curso no Metropolitan Museum, lê-se que o Richard Prince afirmou que o Douglas Crimp o convidara a participar na mítica exposição “Pictures” (1977), no Artists Space, e que ele recusara, mas que afinal isso não ocorrera porque eles nem se conheciam à data e que, portanto, como o próprio Prince depois reconheceria, essa dado era falso. Portanto, de mistificações sempre viveu o mundo da arte...

2) Numa conversa pública com Richard Flood, no New Museum, no passado dia 16 de Julho, organizada a propósito da inauguração da sua exposição “Intersections Intersected”, David Goldblatt referiu-se ao tratamento digital das suas fotografias recentes (a cores), comparando-o com o trabalho de pós-produção que antes fazia na câmara escura. Disse mesmo que o tratamento digital favorecia as imagens, porque estas assim mostravam melhor o que ele quer mostrar. Exemplificou com a dessaturação da cor ou o aumento do contraste. Questionado por alguém da audiência, esclareceu que não manipulava as fotografias, apenas usava técnicas digitais no momento de reprodução do negativo. Onde é que tal difere do que o Edgar faz?

3) Atribuir mais valor a uma fotografia por esta não ter sido tratada digitalmente resulta de um entendimento da fotografia inscrito “na a ideologia do ‘negativo integral’ dominante no ‘corpus’ fotográfico (…). Este modo de encarar a fotografia perdeu a sua pertinência, se é que alguma vez a teve – como já referi no “post” anterior. Isto corresponde a dizer que a escultura tem mais valor se for esculpida pela mão do artista ou que a pintura tem mais valor se for pintada pela mão do artista. Não é claro para todos que esta perspectiva entronca na noção romântica do fazer artístico que é uma construção mitológica?

4) Sobre a sinopse do livro do Edgar publicado pela Aperture, mantenho que quem a escreveu diria exactamente o mesmo soubesse ou não que as fotografias foram tratadas digitalmente, porque isso é irrelevante para a sua apreciação e comentário crítico. A prova disso é que o texto é exactamente igual após a subtracção da expressão “without digital manipulation”.

5) Sobre a saída ou retirada do website do Edgar da galeria Betty Cunningham, só posso lamentar um/a galerista não defenda os seus artistas, pelo que deverá até ser melhor para o Edgar que a colaboração cesse.

6) Para que não haja suspeitas, declaro que conheço o Edgar do tempo em que ambos frequentávamos o Royal College of Art, em Londres, e que embora raramente nos vejamos, mantemos uma relação de amizade. Acresce que sugeri a aquisição de uma fotografia do Edgar para a Colecção da Fundação PLMJ, com que colaboro (quando o Edgar nem sequer tinha ainda galeria) e que a Fundação PLMJ apoiou a edição do livro da Aperture com uma determinada verba cuja contrapartida imediata foi a inclusão de mais duas fotografias do Edgar no seu acervo. Inclusivmente uma fotografia do Edgar integra a exposição “Entre o Céu e o Mar”, por mim co-comissariada, actualmente patente no Centro Cultural de Lagos e produzida pelo Centro de Artes Visuais de Coimbra. Contudo, a minha participação neste debate não tem nada a ver com a tentativa de o defender pessoalmente, justificar as aquisições e comissariados anteriores ou em curso, manter o preço das suas fotografias no patamar que atingiu ou enquadrar intelectualmente a carreira fulgurante de um artista emergente. A mim interessa-me somente dinamizar, ainda que pouco e apenas com o meu humilde contributo, um pertinente debate...

Abraço,

Miguel

ap

O trabalho fotográfico do Edgar, a problematização da fotografia e da relação ingénua que grande parte dos observadores e praticantes estabelece com ela (e com o documentário fotográfico e em especial com o fotojornalismo) que o Edgar tem vindo a fazer nos seus escritos e entrevistas, e mesmo a trapalhada que arranjou com declarações anteriores em que negava operações de pós-produção (talvez referindo-se a algumas séries e algumas imagens e não a outras; talvez levando longe demais a sua vontade de manter a reserva sobre os dados referenciais e processuais das suas imagens; talvez propondo um entendimento pessoal das diferenças entre construção e manipulação fotográfica; talvez perdendo a noção das fronteiras entre a criação de ficções visuais e a razão argumentativa, falando verdade a mentir ou vice-versa) parecem ser um bom contributo para que se vejam melhor as obras fotográficas e se discuta sobre elas com menos simplismo. O incidente terá valido a pena para alargar a reflexão sobre o que são as imagens, o que é a arte, o que é a fotografia (dos primeiros processos ao digital; entre o documento e a arte, problematizando os respectivos trânsitos e trocas), o que é o ilusionismo intrínseco à criação visual (incluindo aí a fotografia em geral e mesmo o fotojornalismo - e percebendo o sentido do "momento decisivo" como construção formal da imagem em HCB), o que é a mentira ou a in-verdade (definida geralmente a verdade como conformidade com o real) da obra de arte, etc. Sabendo que a contribuição das obras de arte (literárias, musicais, visuais, etc) para o conhecimento do mundo e da humanidade não passa, como é afinal evidente, pela exigência de verdade. Grande parte do que se tem dito é do domínio da ingenuidade e/ou da ignorância.

ap

Terminemos aqui esta troca de pontos de vista, que vai extensa, e fica entretanto aberto a comentários o post seguinte "Edgar Martins suite", aguardando-se ainda a publicação da análise da situação e da sua obra pelo próprio autor.

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