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07/09/2009

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Anne Lucida

PDN Magazine

http://www.pdnpulse.com/2009/07/new-york-times-magazine-withdraws-possibly-altered-photo-essay.html

sushi lover

O pior é mesmo o carregarem tanto no "no digital manipulation" e depois algumas edições (como o espelhamento de algumas imagens) serem tão visíveis a olho nu!

as imagens, no entanto, são lindíssimas!

akb

“aquilo que dá autenticidade às fotografias não é a realidade em si, é o fotógrafo", logo, se o fotógrafo não é autêntico...

Pedro Ramos

Não me parece que isto seja mais uma oportunidade para questionar a fotografia.
Isto é sobre honestidade e ética no su estado mais básico.
Mentir de modo a ter sucesso no trabalho.
Podia ter estado calado, talvez tivesse tido algum sucesso.
Se andasse a apregoar que usava Photoshop, nunca teria saído da cepa torta.

ap

Isso é sobre a má fé e o exercício do raciocínio no seu estado mais básico. Quer que lhe diga que me interessam as obras e não me interessam os comentadores? Ou que me interessam os artistas, que não deixam de o ser quando mentem, ou quando cospem na sopa e batem na mãe?
O ensaio fotográfico feito para o NYT explora, documenta e ilustra a actual crise do imobiliário norte-americano. Não inventa uma crise que não existe. Não constrói ou falseia provas sobre estaleiros de obras paradas. É um bom ensaio fotográfico, encomendado para um magazine e não para uma página de informação do jornal. É um documento da autoria de um artista (que não é, nunca foi fotojornalista), é uma inteligente e brilhante ilustração do tema, é uma exploração eficaz dos cenários escolhidos. Transferir para aqui declarações feitas noutro contexto, sobre outras obras, é um equívoco do NYT, que tem publicado diversos portfolios obviamente "manipulados", pós-produzidos, cenografados - é normal que o faça e seria normal que o admitisse. Parta do princípio que os fotógrafos e os fotojornalistas constroem imagens, mesmo quanto "tiram" retratos para o passe. Ficámos duplamente a ganhar: além de um excelente ensaio fotográfico tivemos também um ensaio prático sobre fotografia - a que se poderá seguir um ensaio teórico e justificativo escrito pelo autor.
E comece as leituras, entretanto, pelo último nº da Time Out, que inclui uma entrevista com o Edgar Martins intitulada "Recorro a todas as técnicas à minha volta".

fernando gonçalves

Meu caro Alexandre

Confesso que fiquei surpreendido com a violência da sua reacção ao comentário do Pedro Ramos.

Afinal, nós, comentadores básicos, não perdemos, lá por sermos básicos, a capacidade de pensar sobre esta triste história do Edgar Martins.

Agora, e se mo permitir publicando este comentário básico, vamos lá tentar perceber um pouco o que está em causa, pelo lado dos básicos.

“Isso é sobre a má fé e o exercício do raciocínio no seu estado mais básico – citado do Alexandre”

Não posso estar mais de acordo com a sua afirmação, mas por outras razões.

Em Abril de 2008, e tendo como pano de fundo o lançamento, pela Aperture, do livro do Edgar Martins, o blogue Artmostfierce (vêr link no final deste meu texto) escreveu um texto muito elogioso ao livro, e publicou uma entrevista com o Edgar Martins.

Vejamos partes dessa entrevista, aconselhando, no entanto, e vivamente, uma leitura atenta da mesma:

ARTmostfierce: Your compositions seem to be perfectly symmetrical and of a graphic abstraction of the space and I find that fascinating:

Edgar Martins: I know what you are saying. Yesterday (at the book signing lecture) I mentioned that what I have been trying to do is to create a new visual language with which to work with. It all comes down to this.

Since I started working with photography, I have become increasingly aware that I am able to engage people more If I strip down my visual language. When you are stripping down your language, you are working with very basic mathematical issues, -- symmetry plays a part, some geometry plays a part but. However, though the work is apparently precise, the process by which it is produced is completely imprecise. So this paradox really interests me...

When I photograph I don’t do any post production to the images, either in the darkroom or digitally, because it erodes the process. So I respect the essence of these spaces.

When you become a perfectionist, the perfection takes over, you know? And that really skews the overall meaning of the image. So that ‘s why I try to make the images as organically as possible…But I don’t have anything against digital photography.

Portanto, meu caro Alexandre, as afirmações do Edgar Martins, como o Alexandre acrescenta no seu texto, não foram retiradas de um qualquer contexto e sobre outras obras.

O que o Edgar Martins afirma é que quando fotografa, e esta é uma afirmação absoluta, e entende-se como estando a referir-se a TODO O SEU TRABALHO FOTOGRÁFICO, ele não utiliza “any post production to the images, either in the darkroom or digitally, because it erodes the process”.

Portanto, meu caro Alexandre, o que desde o principio está em causa é a imagem que o Edgar Martins “vendeu” relativa ao seu processo de fotografar, aliando “as exposições longas” a uma absoluta não utilização de técnicas de manipulação da imagem.

Em suma, o Edgar Martins tem baseado a sua carreira numa manipulação dos básicos e crédulos como o Pedro Ramos e eu, entre muitos outros.

Para finalizar, o meu caro Alexandre não acha estranho que o Edgar Martins tenha arranjado tempo para dar entrevistas à Lusa, ao Público e agora à Time Out e não tenha tido tempo para responder às inumeras solicitações que lhe chegaram dos EUA para dar a sua versão do sucedido?

Bem sei que o Edgar Martins não dispõe nos EUA da rede de amizades e compadrios de que dispões entre nós, mas é lá que o “triste caso Edgar Martins” atingiu proporções de escândalo e foi lá também que as críticas mais violentas e bem fundamentadas (não por comentadores básicos como eu) tiveram uma amplitude brutal. E a isso o Edgar Martins diz nada.

Para finalizar, meu caro Alexandre, manifesto o meu total acordo à sua afirmação “Quer que lhe diga que me interessam as obras e não me interessam os comentadores?”, e tomo a liberdade de a subscrever, tomando, no entanto, a liberdade de acrescentar ao "comentadores" alguns “críticos de arte”, “jornalistas” e afins.

Cumprimentos

Fernando Gonçalves

Nota – Se o Edgar Martins tivesse sido honesto desde sempre, e afirmasse o que agora afirma na Time Out, de que recorre a todas as técnicas à sua volta, certamente que esta polémica nunca teria existido.
É certo também que a carreira do Edgar Martins teria sido outra.

http://artmostfierce.blogspot.com/2008/04/edgar-martins-topologies-book-aperture.html

ap

(Resposta a F.G.)
1 - Eu próprio citei - já em 09 de Jul. - as declarações do E.M. ao blog Artmostfierce (com o respectivo link), e tinha acrescentado na ocasião: Não vai ser fácil justificar ter dito o que não precisava de dizer. Pelo que você não traz nenhum dado novo para o debate.
2 - O que foi dito pelo autor a respeito das séries incluídas em "Topologies" (e que se prestou a equívocos sobre o sentido de pós-produção, e não é exacto em relação a algumas das imagens) não pode ser extrapolado para toda a obra do E.M. e para todo o sempre. As imagens e a instalação mostradas no Prémio BES já eram obviamente a demonstração disso mesmo. Quanto às ilustrações para o NYT, as manipulações em algumas das fotografias são tão simples e evidentes (ou mesmo inúteis) que fazem excluir a hipótese de o autor as pretender esconder.
3 - Ao contrário do que sugere, os comentários norte-americanos não são todos em defesa da ingenuidade ontológica da fotografia ou da "verdade" acrítica do fotojornalismo. E pelo que sei a estratégia da resposta de E.M. passa no essencial pela divulgação de um "statement" (um comunicado, ou melhor, um ensaio) prioritariamente dirigido ao NYT.
4 - Por último, posso dizer-lhe que não sou amigo mas sim admirador do E.M. Conheci-o só depois da sua carreira estar lançada na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, e reconhecida em Portugal. A referência à "rede de amizades e compadrios" é um argumento indigno de si. Podemos ficar por aqui?

ap

O blog Lens (Fotografia, vídeo e fotojornalismo visual) mantido pelo NYT publicou ontem (July 23, 2009, 5:00 AM) uma versão adaptada e ilustrada de um artigo de Philip Gefter (antigo picture editor do jornal) incluído na sua recente recolha de ensaios PHOTOGRAPHY AFTER FRANK (Aperture, 2009)

Essay: Icons as Fact, Fiction and Metaphor
By PHILIP GEFTER
ver: http://lens.blogs.nytimes.com/2009/07/23/essay-4/?scp=2&sq=Edgar%20Martins&st=cse

Vários casos históricos de construção de verdades fotográficas são aí recordadas, comentadas e reproduzidas (Capa, Alexander Gardner e Mattew Brady, Lewis Hine, Doisneau, Ruth Orkin e o famoso retrato de Rosa Parks).

O artigo no blog termina com o seguinte parágrafo:
"As a witness to events, the photojournalist sets out to chronicle what happens in the world as it actually occurs. A cardinal rule of the profession is that the presence of the camera must not alter the situation being photographed. The viewer’s expectation about a picture’s veracity is largely determined by the context in which the image appears. A picture published in a newspaper is believed to be fact; an advertising image is understood to be fiction. If a newspaper image turns out to have been set up, then questions are raised about trust and authenticity. Still, somewhere between fact and fiction — or perhaps hovering slightly above either one — is the province of metaphor, where the truth is approximated in renderings of a more poetic or symbolic nature."

Mas a versão do livro é diferente, citando um caso ocorrido há poucos anos no NYT (passagem do facto à ilustração, tornando-o um potente 'statement' editorial) e referindo a prática editorial corrente de apagar ou realçar partes de fotografias. E termina:
"A história da arte é um continuum de imagens construídas que descrevem (depict) a realidade como ela é verdadeiramente, ou como era imaginada em termos ideais. A fotografia não alterou esse continuum; apenas tornou a diferença entre percepção e realidade mais difícil de determinar". De facto, veio dar a essa eventual diferença uma mais problemática condição de existência, veio lembrar que essa diferença é incerta, insegura.
Os comentários dos leitores são também interessantes.

fernando gonçalves

Meu caro Alexandre

Desculpe mas não, não podemos ficar por aqui.

E não podemos ficar por aqui por duas razões: devo-lhe uma explicação e um pedido de desculpas.

Vamos lá então à explicação.

Quando no meu comentário escrevi "Para finalizar, meu caro Alexandre, manifesto o meu total acordo à sua afirmação “Quer que lhe diga que me interessam as obras e não me interessam os comentadores?”, e tomo a liberdade de a subscrever, tomando, no entanto, a liberdade de acrescentar ao "comentadores" alguns “críticos de arte”, “jornalistas” e afins." nem pela cabeça me passou que o Alexandre pudesse interpretar tal frase como uma insinuação, por mais leve que fosse , em relação a sí.

O seu passado, o seu presente e seguramente o seu futuro são a demonstração evidente que nunca tal afirmação se lhe poderia dirigir.

Estava a pensar, isso sim, e lamento não ter sido claro na altura, numa "espécie" de entrevista publicada no blogue ARTEPHOTOGRAPHICA do jornal Público online, e publicada no dia seguinte na edição impressa, em que a jornalista Ana Machado com o autor do blogue, Sérgio B. Gomes, dão início ao que eu suponho ser a estratégia do Edgar Martins para se livrar da embrulhada em que se meteu.

E em que consiste essa estratégia, segundo o meu ponto de vista?

Consiste em o Edgar Martins tentar desviar a polémica do campo ético para o campo da criação artística.

E essa tal "entrevista" não coloca uma única pergunta no campo da ética, mas sempre no campo da criação artística.

Aliás, o título da tal "entrevista" dá o tom ao restante.

Reza o título - EDGAR MARTINS E NYT - DESENCONTROS.

Que eu saiba, para além dos próprios, ninguém sabe, e muito menos os autores da "entrevista", da condições contratuais estabelecidas entre o NYT e o Edgar Martins, e muito menos do conteúdo relativo à troca de correspondência havida entre o NYT e o Edgar Martins antes da suspensão das fotos na net.

Sem se ter conhecimento dos dados, como pode a "entrevista" ser rotulada de "DESENCONTROS"?

Agora as desculpas

Espero, meu caro Alexandre, que aceite os meus sinceros pedidos de desculpa pelo equívoco provocado pelo meu texto anterior.

Limitações básicas de um leitor básico dos seus textos.

Cumprimentos

Fernando Gonçalves

Nota - Aguardo com alguma curiosidade o tal texto do Edgar Martins sobre toda esta triste história.
Mas já deu para perceber que ele se vai refugiar no terreno que lhe é mais favorável, o da criação artística e da sua aproximação à "realidade", e vai fugir como o diabo da cruz do terreno onde, desde o início, esta polémica se situou, o da ética.

Pedro Ramos

O que parece aqui é que o Alexandre não consegue abdicar da sua (e de todos) ilusão inicial: A de que o Edgar fazia fotografias sem manipulação, razão principal da admiração que o trabalho causou. É preciso ver que, sabendo agora o processo, o seu trabalho pouco acrescenta a todas aquelas fotografias "gráficas" que inundavam a revista Photo francesa nos anos 70, carregadas de filtros Cokin. E que ainda hoje pululam nos salões de província, e sites de fotografia amadora.
Essa recusa provoca uma certa agressividade da parte do Alexandre que quase parte para o insulto, tentando defender o indefensável.
ps. não leio a Time Out.

ap

O Pedro dos Reis publica hoje um interessante artigo na Artecapital: "A ontologia na produção da imagem". É um exemplo de como se pode partir de um incidente para uma reflexão produtiva, sem andar à volta de uma teima. Valeria a pena, no entanto, descentrar as obras em relação aos seus criadores e separar a ideia de ilusão e fingimento de uma abordagem psicológica (tomada como ética). A criação da imagem visual representativa é a construção de uma ilusão, embora esta possa não ser uma mentira (um retrato não é a pessoa, substitui-a pela sua aparência, mas podemos supor que é fidedigno). A propósito, o fingidor referido pelo Pessoa é o antigo profissional (artista ou artesão) que pintava falsas madeiras ou falsos mármores sobre o estuque das paredes. O fingidor de qualidade finge que não finge - o fingidor inábil não consegue fingir.

Obrigado FG, ainda bem que não nos zangamos (com ou sem elogios). Quanto ao PR. Como é que lhe passa pela cabeça que os prémios e as publicações nas revistas, em meios internacionais, estritamente académicos e profissionais, tenham assentado em qualquer "ilusão inicial"? São também tolos ou ignorantes os que no dia 9 o incluiram na shortlist do Prémio Pictet, entre 12 grandes fotógrafos de todo o mundo?
Não precisei das afirmações infelizes ou desajeitadas acerca de Topologies, em 2008, para apreciar o trabalho do EM. O que admirava e admiro é, para citar um comentário de 2007,"a inquietação das imagens com que costuma explorar incertezas da percepção do espaço e os intervalos ou acidentes da paisagem, fazendo vacilar as possibilidades de reconhecimento e identificação do mundo, como um director de cena ou de cinema."

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