Para conhecer a obra de Adelino Lyon de Castro o essencial é ainda o recurso ao livro antológico que lhe foi dedicado em 1980, "O Mundo da Minha Objectiva", que na exposição do Museu do Chiado se pode encontrar apresentado numa das vitrinas, mas fechado (e tem uma capa não ilustrada). Ainda se encontra à venda (ou encontrava até há dias), por exemplo na Wook... Inclui um prefácio de Fernando Piteira Santos que continua a ser de leitura necessária, muito significativa a diversos títulos. (Convém conhecer o lugar de Piteira Santos e do boletim e depois mensário "Ler" - 1948-49 e 1952-53 - na história do PCP para se ir iluminando parte deste caso: Foi Membro do Comité Central do PCP entre 1941 e 1950, ano em que foi expulso a pretexto de uma falsa acusação de delação. ( 1918-1992)
"Observadores", ed. 1980 (foto 34). "Os paquetes que entram de manhã na barra / Trazem aos meus olhos consigo / O mistério alegre e triste de quem chega e parte." Álvaro de Campos (legenda escolhida por Fernando Piteira Santos). Os barcos são um dos interesses mais constantes de ALC, mas esta imagem do porto de Lisboa será uma excepção na sua obra, mesmo que seja também um estudo de sombras; abaixo temos a regra salonista com o estudo de reflexos e com o pescador ou marinheiro solitário
Conhecer agora o que foi ou não foi a recepção crítica do álbum de 1980 seria também oportuno. Já referi em nota anterior (4) como esse livro póstumo, em que se reuniram o que julgo serem as provas de época que ALC deixou (incluindo fotografias expostas e reproduzidas em vida, mas em especial inéditos), foi silenciado na história oficial da fotografia portuguesa (António Sena, 1998). Interessava-me também saber como o livro foi recebido e entendido em 1980, quando foi publicado pelo seu irmão Francisco Lyon de Castro (ver abaixo) e pela editora que ambos fundaram, para, como se diz numa nota de abertura do Editor, comemorar os 35 anos de existência das Publicações Europa-América e prestar uma homenagem póstuma à memória do fotógrafo. O catálogo do Museu do Chiado não fornece quanto a isso qualquer pista (existirá um dossier de imprensa nos serviços da editora?). Entretanto, sou levado a pensar que a distribuição terá sido à epoca confidencial, até por se tratar de uma publicação comemorativa e de homenagem pessoal.
Certo é que não encontro, até agora, qualquer referência publicada em 1980-1981. Nada no "Foto Jornal", mensário que se editou de Maio de 1978 a Maio de 1980 (nº 24 - já por ocasião dos 1ºs Encontros de Coimbra), nem na revista "Nova Imagem" que o continuou a partir de Julho desse ano, sempre com direcção de Pedro Foyos. Nada também num importante artigo de António Sena no "Jornal de Letras", nº 3, de 31 de Março de 1981 (pag. 30), intitulado "Ver para não crer", onde, precisamente, se propõe uma revisão das realizações fotográficas do ano de 1980 - ano em começa a afirmar-se um novo contexto da criação e da recepção fotográficas. Nada ainda noutras consultas não regulares. O enigma persiste.
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Por outro lado, é necessário contrariar as afirmações de Emília Tavares no texto "Imagens latentes" incluido no catálogo, segundo a qual ALC era um fotógrafo "praticamente desconhecido" e "cuja divulgação em vida foi muito reduzida" (pág 9 do cat.). Poderia dizer-se esquecido, ocultado, silenciado, mas o segundo juízo é errado.
"Reflexos", ed. 1980 (foto 9). "Deus ao mar o perigo e o abismo deu, / mas nele é que espelhou o céu." F. Pessoa
No tempo muito breve da sua apresentação pública como fotógrafo, de 1946 a 1953, ano da morte, a divulgação da sua obra foi muito intensa nos Salões e contou aí com presenças especialmente significativas - esse era o circuito normal de divulgação da fotografia de ambição artística, e o caso contemporâneo de Fernando Lemos, que já era antes conhecido como artista plástico, é uma excepção isolada e fugaz ( Galeria de Março, 1962). Só um pouco mais tarde Eduardo Harrington Sena publicaria no "Jornal do Barreiro" os seus quadros sobre a actividade dos amadores nacionais, mas Lyon de Castro tem em vida o que se poderia chamar um percurso fulgurante - claro que sem as condições de mediatização actuais: o anacronismo é aqui o maior risco interpretativo (além do desconhecimento efectivo das fontes directas).
Lyon de Castro tem também presença, mesmo que discreta, no que é a mais importante publicação fotográfica do imediato pós-guerra, o livro de Maria Lamas "As Mulheres do Meu País", editado em fascículos entre 1948 e 50. O livro - reeditado em facsimili em 2002, com melhor qualidade editorial graças a José António Flores, à editorial Caminho e ao uso de provas de época no caso das fotos da autora e de alguns outros, nomeadamente de Lyon de Castro (pelo que se pode depreender, três dos dez originais - contactos? - devem encontrar-se no espólio fotográfico de Maria Lamas e dois outros faziam parte do espólio que se conservou nas P.E.-A.) - não foi incluído na actual mostra do Museu do Chiado, e é uma omissão grave, mesmo que agora se quisesse apenas apresentar o espólio doado.
Também já fora escamoteado na citada história da fotografia portuguesa (é improvável que não fosse conhecido pelo respectivo autor). Mas a colaboração de Adelino com Maria Lamas foi antes objecto de atenção na exp. de 2009, Batalha de Sombras, também de Emília Tavares. E, aliás, já tinha sido no boletim "Ler - Informação Bibliográfica" (Publicações Europa-América, Maio-Junho 1948) que Maria Lamas anunciara a sua extraordinária aventura fotografica, iniciada aos 54-55 anos: "Resolvi arranjar uma máquina e ser eu, também, fotógrafa" ( ver aqui, em 2009 ) .
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Francisco Lyon de Castro (1): ver Biografia, Fundação Mário Soares (8Junho2011). Extracto onde se fala de Adelino:
FRANCISCO LYON DE CASTRO (1914 — 2004)
Francisco Lyon de Castro nasceu em Lisboa a 24 de Outubro de 1914, " ali para os lados da Estrela". Benjamim de uma família de 10 irmãos, é filho de um comerciante e pequeno industrial de madeiras de Óbidos, Adelino, e de uma dona de casa, Rosalina, e neto de avô escocês Edward Lyon, de descendência da mais distinta nobreza britânica e que viveu em Óbidos e participou na administração da construção da linha dos caminhos de Ferro do Oeste. Fez-se nas andanças da rua onde também jogava à bola com "a malta do bairro", próximo ao Cemitério dos Prazeres, mas sempre debaixo do rigor da educação materna. Aos 13 anos, fundou uma organização de solidariedade no bairro onde vivia com os pais, em Campo de Ourique, destinada a apoiar crianças pobres e promover acções culturais com os seus companheiros de bairro. Aos 14 anos, entrou para a Imprensa Nacional como aprendiz de Artes Gráficas. Aí conviveu com operários anarquistas, sindicalistas e comunistas.
Em 1932, funda o jornal Mocidade Livre, que constituía uma frente democrática de jovens operários e estudantes. O Mocidade Livre dá origem à criação da União Cultural Mocidade Livre, que realiza na Universidade Popular Portuguesa um ciclo de conferências, de que a primeira é a de Bento de Jesus Caraça («A Cultura Integral do Indivíduo — Problema Central do Nosso Tempo») e a que se seguiriam outras: de Hugo Baptista Ribeiro, de António Sequeira Zilhão e de Francisco Lyon de Castro. A conferência de B. J. C. foi publicada em brochura, impressa na gráfica da Seara Nova por solidariedade de Câmara Reis. Esta brochura era a primeira de uma série designada por «Cadernos de Vanguarda». As conferências que se seguiriam foram proibidas pela PVDE — polícia política do regime.
Em 1933, F. L. C. adere ao Partido Comunista Português, toma contacto com alguns dos seus militantes, entre eles Gabriel Pedro e Francisco Miguel, e funda uma célula para a qual alicia, entre outros amigos, Júlio de Melo Fogaça, que mais tarde veio a ser membro do Comité Central do PCP. Ainda em fins de 1933, F. L. C. participa na preparação do movimento contra a criação dos Sindicatos Nacionais (corporativos). Aquele movimento foi desencadeado em 18 de Janeiro de 1934, provocou muitas prisões, algumas em áreas da linha de Sintra, onde F. L. C. desenvolvera acções preparatórias do movimento com vista a barrar o trânsito dos comboios por altura do Cacém.
A repressão que se seguiu justificou a fuga de F. L. C para Espanha. Depois de passar clandestinamente a fronteira espanhola, instala-se em Madrid, onde estabelece contactos com organismos democráticos portugueses de emigrados e com o Partido Comunista Espanhol, onde passou a militar. Em fins de 1934 há um movimento insurreccional nas Astúrias, com repercussões em muitos pontos da Espanha, inclusive Madrid. No movimento das Astúrias há uma larga participação de mineiros, muitos dos quais se refugiam em Madrid. F. L. C. trabalha então com organizações comunistas para apoio aos mineiros. A uma delas preside Dolores Ibarruri, a Passionária com quem colaborou. Procuram instalar os mineiros que se refugiaram em Madrid e organizam a sua passagem clandestina para França.
É em Madrid que F. L. C. conhece pessoalmente Francisco Paula de Oliveira (Pavel), então um dos dirigentes das organizações comunistas portuguesas. Toma também contacto com outros opositores ao regime português, incluindo entre eles o chamado grupo Budas, e alicia Joaquim Pires Jorge para a célula que já havia constituído. É neste período que F. L. C. frequenta com assiduidade o famoso Ateneo de Madrid, onde conhece, e ouve em conferências, muitos intelectuais e políticos republicanos e socialistas. António Machado, Lorca, Rafael Alberti, Manuel Azaña, foi gente com quem privou. Sobrevivia precariamente graças ao apoio que alguns camaradas da Imprensa Nacional lhe faziam chegar e da venda ambulante.
Em 1935, durante o Congresso da Juventude Comunista Espanhola, F. L. C. organiza com um grupo de refugiados políticos portugueses uma exposição com material de propaganda das organizações comunistas portuguesas, do Socorro Vermelho Internacional e de jornais de prisão, que mais tarde, em Paris, cede ao jornal Monde, dirigido por Henri Barbusse, a quem faz a entrega pessoal dos jornais de prisão para se divulgar a luta em Portugal contra o regime de Salazar.
Passa clandestinamente para França, a pé, pela montanha, durante 80 km, em pleno Inverno, em condições muito difíceis. Esta «aventura» bem como outras partes da vida de F.L.C. veio a ser romanceada por Fernando Namora em "Os Clandestinos". Ainda em 1935, em Paris, desenvolve actividade em organismos democráticos e de solidariedade, particularmente entre operários portugueses residentes nos arredores de Paris, organizando sessões de esclarecimento com vistas à preparação política e sindical dos trabalhadores portugueses. Estudou Trotsky mas afirmava que aquele não o tinha influenciado. Em 1935, recebe de Francisco Paula de Oliveira, então em Moscovo, uma carta a considerar que F. L. C., em vez de ir para Moscovo, deve regressar a Portugal, onde há a luta.
F. L. C. responde ao seu jeito característico que a luta também não é em Moscovo mas obedece
e regressa a Portugal. Pouco depois, foi preso. Esteve vários meses incomunicável em esquadras da PSP e depois no Aljube, Peniche e Caxias. Apanhou "grandes tareias", como ele dizia, sofreu a tortura do sono. F. L. C. foi julgado no Tribunal Militar Especial e condenado a quatro anos de desterro. É deportado para os Açores e cumpre a pena na Fortaleza de S. João Baptista em Angra do Heroísmo.
Em 1939, estando ainda preso em Angra do Heroísmo, toma conhecimento do Pacto Germano-Soviético e revoltado com a ligação da URSS a Hitler, decide abandonar o PCP. Nessa altura decidiu também, nunca mais se submeter a estruturas partidárias.
Casa, entretanto, por procuração, com a namorada, Eunice, filha de um pastor protestante e maçon. Eunice, catrapiscara-a anos antes nas suas idas a uma Igreja Protestante, a Igreja de Jesus então existente na rua 4 de Infantaria em Campo de Ourique. Era aí que ele levava jovens amigos e conhecidos porque o Pastor apoiava acções culturais e sociais junto de crianças e jovens mais desfavorecidos.
Foi posto em liberdade em 1940, depois de ter estado preso durante cerca de cinco anos e durante um deles de castigo nas "portas falsas" e na terrível poterna do forte de Angra. Aí arranjou uma doença renal de que nunca recuperou totalmente.
Quando regressou quis voltar ao seu trabalho na Imprensa Nacional mas isso foi-lhe recusado. Pediu auxilio ao Pai e durante cinco anos com ele trabalhou na pequena empresa familiar de negócios de madeiras. Nunca se esqueceu do apoio que então lhe deu um Administrador dos Caminhos de Ferro, um tal Leite Pinto que, embora sabendo do seu percurso político, acreditou mais na sua capacidade de trabalho, de organização e na promessa de cumprimento de prazos. A Europa estava em guerra e Portugal para ter os comboios a circular dependia dramaticamente da lenha que fosse possível arranjar. F.L.C. percorreu todo o país, organizou equipas de madeireiros, inventou transportes, improvisou pontes e caminhos e como ele costumava dizer, "entregou a carta a Garcia". O tal Leite Pinto mais tarde, nos anos 50, veio a ser o Ministro de Educação Leite Pinto.
No final da II Grande Guerra, logo em Maio de 1945, F. L. C. considera que é chegado o momento de explorar acções legais, apesar de o regime de Salazar se manter. Com o pouco dinheiro que tinha organiza com seu irmão, Adelino Lyon de Castro, a Editora Publicações Europa-América, que se propõe, além da actividade editorial, realizar a importação de livros e publicações periódicas estrangeiras. As importações fazem-se sobretudo de França, mas a maior parte delas é apreendida nos serviços dos Correios, que colaboram com a PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado) e com os Serviços da Censura. Como a importação estava a levá-lo à ruína começa a editar. Um dos primeiros livros que publica é "A Centelha da Vida"de Erich Maria Remarque. O seu tradutor é um jovem, de nome José Saramago.
Entretanto em Junho de 1945, nasce o filho Tito.
Em 1952, F. L. C. funda o jornal "Ler", para o qual chama a colaborar Fernando Piteira Santos. Apesar de ter a colaboração de um vasto leque de intelectuais de todas as tendências, foi objecto da intervenção permanente da Censura, que, em 1953, o proibiu, sob o pretexto de que Adelino Lyon de Castro, editor do Ler, havia falecido. Também o PCP combateu o jornal porque tal como ao Regime não lhe agradava a sua independência. Nomes como João José Cochofel, Cardoso Pires, Maria Lamas, Mário Dionísio, Nuno Teotónio Pereira, António Quadros (filho de António Ferro), Delfim Santos, José Régio, Orlando Ribeiro, Tomás Ribas. É pouco depois do falecimento de Adelino Lyon de Castro que a esposa de F. L. C, Eunice, entra para sócia da Europa-América."
(É uma versão soft do conflito SNI-Ler-PCP, de que se falará depois.)

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