Depois de visto o catálogo da exp. do Museu do Chiado, e revistas as notas anteriores (e alinhadas de 1 a 4...), mais se confirma a ideia de que a obra de Adelino Lyon de Castro, o seu esquecimento e a revalorização/reconsideração recente (desde 2008/2009), e em geral a sua fortuna crítica ou falta dela, poderiam tomar-se como um caso de estudo.
É curioso que se diga que "a sua actividade como fotógrafo era (em 2009) praticamente desconhecida", pág. 9, e logo adiante, pág. 15, se precise que "embora as referências não sejam abundantes, as que existem evidenciam um fotógrafo amador com actividade regular nos principais salões fotográficos da época e com reconhecimento firmado, entre os seus pares, da sua actividade e do seu trabalho". O desconhecimento é geral sobre a fotografia e a sua história, feita por amadores ou por profissionais, com excepções isoladas que decorrem das pontuais operações de reavaliação ou revelação de obras ocultas. Em geral, e desde os anos 1930, não se conhece uma história, descobrem-se casos (sempre desconhecidos). Tudo continua a passar-se entre "pares" tendencialmente estanques (os vários meios da fotografia, os meios da arte, os críticos, etc). Entre reconhecimentos pelos pares e ignorância dos públicos.
Sem destino (O MUNDO DA MINHA OBJECTIVA, 1980 - foto 25)
Colocando em confronto as duas publicações póstumas dedicadas à obra de Lyon de Castro, em 1980 (O MUNDO DA MINHA OBJECTIVA) e em 2011 (O FARDO DAS IMAGENS), é a mais antiga que me parece representar melhor a sua obra de fotógrafo. O que me autoriza a prever que o desconhecimento que a seu respeito reinava em 2009 se vai re-instalar rapidamente ou, melhor, mantem-se de facto por inteiro, apesar de agora se somar ao livro uma exposição de museu, mas onde aquilo para que se olha não pode ver-se.
Por um lado, é certo que o livro de 1980 (um livro de homenagem que terá tido uma difusão talvez confidencial) reproduz provas impressas pelo fotógrafo ou sob a sua direcção, a partir da decisão tomada pelo próprio sobre quais os seus negativos e contactos dignos de impressão ampliada, sendo as 70 imagens reproduzidas no livro (conformes com os formatos decididos pelo autor) escolhidas por pessoas que lhe foram próximas e conheceram o seu itinerário e os seus interesses e gostos. Sem sabermos o que a escolha final deixou de parte (por falta de sobras significativas no espólio), é provável que se tratasse de uma selecção próxima de uma auto-antologia - ainda que no início dos anos 50 fosse improvável um projecto de edição de um álbum próprio. E mesmo que o fotógrafo fosse também editor. Há por aí enigmas que talvez fiquem para sempre por esclarecer, devido à morte por doença em 1953, certamente uma doença fatal de rápida evolução.
A exposição-edição de 2011 resulta de um exercício de impressão de inéditos ("integra cerca de 70 fotografias inéditas", apresentação, pág. 5), substituindo-se ao autor-fotógrafo o comissário-intérprete, o qual se considera legitimado por improváveis argumentos. É certamente absurdo, desde logo, que face a um autor vítima do desconhecimento actual se opte por apresentar inéditos não escolhidos pelo próprio em vez de dar a conhecer as fotografias que escolheu, imprimiu, expôs e publicou em vida. A confusão entre uma fotografia (impressa ou reproduzida) e um negativo (que pode ser escolhido e impresso em diferentes formatos e com diferentes opções de luz e contraste, como uma partitura a interpretar - ou que pode ser rejeitado pelo autor) é péssimo vício e uma prática comum.
Edílio (O MUNDO DA MINHA OBJECTIVA, 1980 - foto 23)
"O que se desvenda num espólio, cuja maior parte permaneceu não divulgada pelo próprio fotógrafo, insere-se sempre numa lógica de interpretação (...)", pág. 9-10 [em fotografia, os negativos não impressos são sempre em número muitíssimamente superior aos escolhidos, por exemplo por se repetirem os disparos de diferentes pontos de vista; o uso dessa lógica de interpretação é em muitos casos inviabilizado pelos fotógrafos que destroem os restos não escolhidos ou pelos que deixam proibidos tais usos - noutros casos, a produção de inéditos póstumos tem dado origem a polémicas sérias e também a perigosos oportunismos.] Adiante: "O que permaneceu apenas como negativo constitui matéria tão (ou mais) importante como a que foi impressa e divulgada, e a história dessas escolhas ou ausência delas é frequentemente a história de aspectos mais abrangentes e definidores duma época e não apenas dum autor." (pág. 10) A frase está correcta se o sujeito que escolhe ou não imprimir e divulgar é o respectivo autor dos negativos; a substituição por um intérprete auto-nomeado do que devia ser oconhecimento do que um autor escolheu imprimir e divulgar pela revelação do que aquele considera que o autor devia ter escolhido é um exercício de recriação interpretativa e autoral que exige a comparação com a produção original e com outras diferentes recriações para que se avalie a sua justeza ou arbitrariedade. A lógica da interpretação não pode substituir-se à "lógica" da apresentação e do conhecimento da matéria original, que é aqui a prova de época.
#
Antes de pôr em confronto os materiais de 1980 e os de 2011, a interpretação de 2011 e os originais de 1980 (possíveis ou relativos originais, não acompanhados pelo autor), as interpretações alheias de "inéditos póstumos" de 2011 e os "originais póstumos" de 1980, vale a pena rever a interpretação que está presente na ainda única e cada vez mais inverosímil história da fotografia portuguesa, a de António Sena (Porto Editora, 1998).
Na pág. 261, duas fotografias de Lyon de Castro (que não é identificado), Ex-Homens e Sem Destino, apontam-se como títulos enfáticos ou redundantes, entre outros, que se aliam a dois estereótipos de imagens com curso predominante nas associações fotográficas: as que salientavam os ambientes lumínicos e as que salientavam a composição - estes dependentes do "culto da Rollei" (referência ao Foto-clube 6 x 6). Nada a contestar, Adelino Lyon de Castro cumpria as regras correntes da prática salonista, mas substituia o seu formalismo "estéril" por uma "visão humana", pela vontade de uma intervenção "humanista". E fazia-o com um êxito e um reconhecimento raro - daí a sua importância. A rejeição de ALC, não identificado, é aqui caricatural e feita com má fé.
Nas pág. 271, ignora-se a presença de Lyon de Castro na V Exposição Geral de Artes Plásticas (1950) ao lado de Francisco Keil do Amaral, que é por si mesma um acontecimento de grande significado, mesmo sem consequências explícitas. Aí, ALC volta a expor Ex-Homens, o mesmo título enfático agora testado noutro contexto cultural e político. Mas AS confunde-se e inventa a presença de Keil do Amaral e Vitor Palla na VIII EGAP, 1954, que não incluiu sector de fotografia. Por outro lado, ignora por completo a publicação de As Mulheres do meu País de Maria Lamas em 1948-50, uma obra que por si só desautorisaria o título do capítulo VII, "A revolta silenciosa da intimidade". Nada disto é ocasional - aqui pratica-se a omissão, a ocultação (daí o lapso, a troca das EGAP).
A seguir, na pág 272, Adelino é citado de forma intencionalmente ambígua. "No universo restrito dos Concursos e Salões, os equívocos sucediam-se, apesar da qualidade - quase sempre miserabilista - de alguns trabalhos isolados de Fernando Vicente, Tavares da Fonseca, Adelino Lyon de Castro (?-1953) e, sobretudo, Augusto Cabrita (...)" Qualidade equívoca e miserabilista... seria caso para explorar tão raras excepções à mediocridade ambiente. Mas AS ignora até as datas relativas à vida de Adelino, embora na bibliografia geral refira o livro de 1980 (e só o faça aí, pág. 408), onde elas se indicam logo após a página do título. Novo lapso. Entretanto, deve saber-se que Concursos e Salões eram os lugares habituais e quase únicos da exposição da fotografia, e também das outras artes, não podendo ser desvalorizados pos si mesmo, até que a fotografia de exposição se estabeleça muito lentamente noutros circuitos de visibilidade.
Não é de desconhecimento que se trata, é de silenciamento interpretativo. ALC fica mais dez anos por descobrir, de 1998 até 2008.

Comments