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07/24/2011

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AB

A exposição é interessante e penso que o ponto alto é a apresentação dos dois "Fados" do Malhoa: o mais pequeno de 1909, e o maior de 1910, mais conhecido e reproduzido e que pertence ao Museu da Cidade.

Assim, lado a lado, dá para ver que em termos cromáticos e de composição são impressionantemente semelhantes e reveladores do virtuosismo do pintor. As diferenças são de execução e não me parece que o mais pequeno deve o que quer que seja ao maior.

Até dá para fazer uma análise curiosa sobre a redução de imagens. O quadro pequeno tem as mesmas características que se podem apontar às reduções mecânicas de imagens: maior densidade, obtida com pinceladas menos desfeitas e uma atenção ao pormenor que o maior ignora. O que significa que Malhoa, procurando uma fidelidade absoluta na reprodução, adequou a pincelada à escala das obras. Para a maior pinceladas mais largas e soltas, para a mais pequena toques curtos de pincel e mancha mais densa.

Daí que, habituados que estamos a ver reproduções desta iconográfica obra, a mais pequena nos pareça mais próxima da ideia que mentalmente temos da obra.

É giro: o quadro mais reproduzido é normalmente o maior, mas como para o reproduzirem o reduzem, o mais pequeno aparece como aquele que está mais próximo da ideia que temos da pintura...

AP

Fui lá ver outra vez, e não fiquei exactamente com essa ideia quanto ao pormenor e à pincelada em termos comparativos, mas não importa. O facto, e o que é mais importante, é que parece ser a 1ª vez [é já a 2ª, depois de uma première em 2010 [corrigi 1910] na SNBA por via da República] que se mostram juntas as duas versões finais de O Fado: a de 1910, muito conhecida, e de 1909 a outra, ao que parece reproduzida só em 1962 no Diário de Lisboa, então leiloada no Brasil e vinda para Portugal, e em leilão de novo já em 2001, em Lisboa, e exposta no Rio de Janeiro em 2003 envolta em polémica quanto à autenticidade. E esta não parece agora posta em causa pelas autoridades competentes. Esta história vem referida por Nuno Saldanha, em José Malhoa. Tradição e Modernidade, ed. Scribe, Lisboa 2010 (pág. 317 secção "Fado há só um?"). O mistério é grande porque é só da versão de 1910 que se conhece o itinerário, desde que Benoliel e A Ilustração Portuguesa divulgaram a conclusão da obra, que logo seguiu para a Argentina com o título Bajo el Encanto. Além dos dois O FADO, mostra-se o estudo de 2008 sobre madeira e a Adelaide s/d, e não só... Entretanto há que recomendar o texto da directora do Museu do Fado Sara Pereira no catálogo, onde se revê a bibliografia sobre o quadro (de 2010) e em especial que cita o Rui Ramos da A Segunda Fundação.

AB

Não vi a "première" de 2010 (corrige o 1910) na SNBA, por isso esta foi a primeira vez vi as duas pinturas lado a lado. Quanto à autenticidade da versão de 1909, não ignoro a polémica como não desconheço a geral suspeita sobre os Malhoas retornados do Brasil. Mas pensei que depois da tese do Professor Nuno Saldanha as coisa tinham ficado esclarecidas.

De qualquer maneira não faz sentido que subsistam dúvidas que uma análise laboratorial com alguma exigência facilmente esclareceria. A não ser que Vasco Pereira Coutinho, proprietário da obra, não queira correr riscos...

Também hei-de voltar à exposição, para além de outras coisas quero ver melhor o pequeno estudo de 1908, onde o Amâncio canta o fado com a boca toda aberta e que acho muito mais sensual que as duas versões finais, onde apesar de tudo a Adelaide aparece bastante mais composta!

AP

A questão da autenticidade da versão de 1909 colocou-se nomeadamente em 2003 quando de uma exp. dedicada a Malhoa no Rio de Janeiro, onde o quadro apareceu à revelia da comissária, Lucília Verdelho da Costa. Mas o actual proprietário obteve depois pareceres suficientes, incluindo do então Inst. P. de Conservação e Restauro.

Nuno Saldanha não pretende propor uma tese conclusiva por não existir documentação, e insiste que não há garantias firmes acerca da veracidade ou da falsidade da versão. Parece ser só uma questão de método.

O Fado e o seu duplo é uma história que vem apimentar a comparação dos quadros e poderia tornar mais mediática esta mostra actual, se quiserem (já sei que vai aumentar a promoção do acontecimento, depois do início confidencial). E vem dar mais elementos para pensar nos métodos de trabalho e nas ambições do pintor, que foi usando curiosas designações para o Fado nas suas circulações internacionais (a internacionalização das artes que existia no início do séc. XX é muito surpreendente): Bajo el encanto, Será verdad?, Sous le charme, The Native song (ainda N.S. pág. 325). Aliás, a versão de 1909 será uma versão final ou um um "estudo acabado"? E é óptima a presença dos dois estudos anteriores, de 1908 e s/d, com as suas molduras douradas que funcionam como máquinas ópticas (além de terem outros efeitos sumptuários - nada é por acaso)

Mas por ali há outras questões curiosas: A simultaneidade entre a temática moderna do Malhoa (pintura de maus costumes urbanos... pq ainda não é o emblema nacional, e que foi polémica ao tempo, o tempo da República) e as guitarras dos cubistas que depois aparecem em Amadeo e Viana. A estranha ambivalência do Cândido (5 obras), o mais prolífico dos surrealistas; excluído por todos e difícil de recuperar, mas é aqui uma presença relevante. A tão diferente eficácia das grandes obras da Joana Vasconcelos e do João Pedro Vale, que prolongam a bipolaridade do Fado e da nossa relação com ele.
(Abraço)

AB


Esse aspecto das guitarras também merece um comentário. Em determinada altura pareceu-me que para justificar a presença de uma obra na exposição bastava que tivesse guitarra ou viola... depois ultrapassei, pois uma obra que não tem guitarra nem viola, o "Ramalhete de Lisboa" do Carlos Botelho, tem mais fado que as guitarras todas do Cândido da Costa Pinto.

Já "Festa na Aldeia" do Leonel Marques Pereira, que tem guitarra mas não tem fado, é curiosa e quase passa despercebida (também é quase para ver à lupa).

Da Joana Vasconcelos penso que depois da eficácia cénica da montagem criada para a exposição "Amália" do CCB e que depois ficou para a antológica da artista, um coração apenas, mesmo sendo o vermelho, perde impacto e parece um tanto só. O vermelho, o negro e o amarelo rodando juntos naquele ambiente negro são difíceis de esquecer.
A fotografia pareceu-me (e tu dirás com mais autoridade) a parte mais fraca da exposição, ainda por cima apresentada como um apêndice caudal*?

Mas a exposição tem vida, é diversificada e tem presenças inesperadas, o que é mais um motivo de interesse.

É claro que ter a mente aberta ajuda e nem é preciso ser amante do fado.

Um abraço

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