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07/26/2011

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Sérgio Reis

As "poderosas" palavras de Nicholas Serota devem ser entendidas como um slogan para a campanha comercial internacional que se abre com a morte do artista. "Vitalidade", "intensidade" e "presença" são atributos que podem aplicar-se a uma enormidade de produtos de uso corrente e mal vai a crítica de arte - e muito pior a história da arte - se se fixar neste tipo de discurso. Poderão ser essas as vozes dos donos da arte internacional, que o génio dos artistas ainda vai mantendo em níveis decentes, mas continuo a pensar que o sucesso tardio de Lucian Freud fora da Inglaterra (ou concretamente de Londres)se deve a uma compreensão igualmente tardia dos mecanismos de auto-satisfação perversa e muitas vezes mórbida imposta pela inquietude e vertigem quotidiana em que vivemos. O mesmo terá acontecido a Saramago, na Literatura, que passa de um discurso escorreito, pontuado e consensual, a uma torrente de palavras e imagens de grande interesse estético e habilidade técnica mas muitas vezes perturbadoras e algumas vezes cruéis. Nem sequer podemos explicar o sucesso de L.F. com alguma influência de Bacon, que terá dado frutos em tempos mais propícios, considerando o ênfase cultural dado ao culto do corpo sexuado - primeiro o feminino, mais tarde o masculino,mas é curioso verificar que a obra de artistas como Paula Rego e do seu genro, Ron Mueck, também mudaram nesse sentido praticamente ao mesmo tempo, embora com resultados distintos e característicos: Paula Rego voltando-se para o universo marivilhoso das histórias infantis, que sublimam medos e taras do mundo dos adultos, e Mueck para o seu mundo de bonecos e caricaturas fora da escala normal.
Aprecio Lucian Freud (e Paula Rego, já agora!)pela natureza despojada das suas narrativas e pelo efeito que as suas imagens produzem - e que é sobretudo um efeito voyarista. Já vi muitas obras de Paula Rego ao vivo e vi "Naked Girl with eggs" de Lucian Freud na Casa das Histórias e agora na sede da EDP no Porto, e essas obras ao vivo não adquirem particular presença, o seu âmbito é mais psicológico que eminentemente artístico. Poderiam "vender" Lucian Freud de outro modo, talvez com melhores lucros.

Sérgio Reis

AP

Obrigado pela leitura interessada e a colaboração. Ainda ando a ver se acrescento a ilustração documentada do que referi como sendo um "lugar nenhum".

Mas discordo, rapidamente: a vitalidade dos nus, a intensidade da natureza morta (da relação pictural com os objectos vistos) e a presença dos retratos... O Serota pesou muito bem as palavras que disse e elas têm um grande e rigoroso alcance no campo da crítica de arte, quanto à pintura e à sua tradição (a "grande tradição"?), à permanência dos géneros, à dimensão existencial (mais existencial que essencial ou essencialista-formalista), e por isso inter-relacional, da imagem e da sua recepção, etc.

Podem ser vistas como uma resposta precisa e muito intencional a adversários de grande influência, como a Rosalind Krauss (e o bando da revista "October"), que na história do séc. XX, "Art Since 1900", Thames & Hudson, 2004, por exemplo, pretende varrer o que chama a 3ª geração de neo-expressionistas com o aparecimento da Pop, a qual, diz, "empurrou todas essas ideias sobre a relação entre o figurativo e o expressivo para a lixeira da história". A lixeira da história...

Tem graça que no seu comentário se refira também à "presença" como critério, e o quadro em causa é uma "pequena" obra emprestável pelo British Council durante um ano - é ao longo das décadas de 80 e 90, baralhando a cronologia corrente, que o Freud se foi tornando cada vez mais impressionante na própria matéria da pintura. É um formato discreto quando estamos fisicamente à espera das grandes dimensões "americanas", mas é curioso que visto em reprodução no catálogo volta a ter um grande impacto não só voyeurista.

Quanto à campanha comercial, é exactamente o contrário do que neste caso pode querer um director de museu: o preço de Freud já é inalcançável por qualquer instituição pública...

Sérgio Reis

Quando falei em "vender" Freud não me referia propriamente à comercialização das suas obras - que só faz sentido, como bem sublinhou - na alta roda dos negócios da arte, dada a cotação das suas obras. Referia-me à construção do mito, transformar um artista tímido e humilde num artista "com lugar único no panteão da arte do final do século XX", cujas "... primeiras pinturas redefinem a arte britânica e as suas obras tardias são comparáveis com os grandes pintores figurativos de qualquer período" parecem-me afirmações excessivas,seja em que contexto for. Claro que podem entender-se no contexto do xadrez de influências no eixo Londres-Nova Iorque, especialmente quando evocamos a controversa (polémica, mesmo)Rosalind Krauss. O problema destas guerrilhas internacionais, que confunde o entendimento comum dos fenómenos artísticos contemporâneos e lança sobre eles algum descrédito, é haver alguém tentado a escrever "uma certa" história de qualquer coisa, no caso a da arte desde 1910 - que pode na verdade contar-se de várias maneiras.
Finalmente, quando falei em "presença" não me referia à parte física da obra mas sim algo mais que se sente quando ficamos totalmente sós diante de uma obra, sem máscaras nem desculpas para nos desprendermos nem que seja um pouco dos pré-conceitos e interesses corriqueiros, do dia a dia elástico que nos prende a uma realidade pré-fabricada, normativa, acrítica. Compreendo que a gente do meio, a começar pelos artistas, procurem ver a obra por outra perspectiva, "como é feita", "como funciona" (Ângelo de Sousa"). Na minha opinião, os pequenos formatos de Lucian Freud rivalizam, em conteúdo plástico, com obras de maior impacto visual em termos de superfície pintada e espectacularidade da composição - embora o retrato de Isabel II não seja um bom exemplo disto - mas o motivo e a composição perderia com formatos superiores. Estamos a falar em formatos médios de 1 a 2 metros (a referida obra de 1980/81 que está agora no Porto não chega a um metro na medida maior)e parte do sucesso da pintura de L.F. nos anos 90 também terá a ver com a fixação do formato, exceptuando a insuficiente "À Espera do Quarto Filho", um óleo de 2005 com apenas 10,2X15,2 cm, a mais pequena obra do artista. Seja como for, a pintura de Lucian Freud pode ser tudo menos acomodada, reverente, normativa. Que mais se pode pedir a um artista "condenado" desde já ao panteão da arte do final do século XX (e início do século XXI)? Um "lugar nenhum" pode ser o pódio imaterial daquele que voga acima de géneros e épocas,sem necessitar de se assumir como referência nem de ecoar com estridência para ser único. Como El Greco, por exemplo.
Sérgio Reis

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