Criar acção
Não conheci na altura própria os filmes e ensaios de animação de Jorge Varanda, mas segui quase desde o início as suas exposições enquanto "pintor tradicional", como já vi escrito. A tal tradição da pintura é sempre uma história acidentada de inovações e continuidades, e Jorge Varanda foi um dos que, como pintor, nunca se estabeleceu como continuador de práticas ou de modelos anteriores. Essa inquietação de experimentar, de ampliar a "tradição", foi sempre muito visível.
s/t, 1979
Na exposição "Ludus" que em 1983 se montou na então importante Galeria Metrópole (era um grande 4º andar na Barata Salgueiro, diante da SNBA - onde também expôs o grupo que viria a expor "Arquipélago"), as obras arrumavam-se no catálogo em conjuntos chamados Articulados, Relevos, Mutáveis e Casas inversas, procurando ultrapassar a suspeita rotina do quadro (mas o quadro, bom ou mau, é uma das grandes conquistas da civilização). Tratava-se de dobrar e desdobrar espaços para dar tempo à representação, como na banda desenhada, e para pôr o espectador em movimento: para criar acção. Na animação artística dos anos 80, Jorge Varanda foi dos notórios intervenientes, desde as colectivas "Figuração, Narrativa", na ESBAL (1983 e 84), e "Novos, Novos", na SNBA (1984).
Encontro no arquivo algumas breves "notas" sobre as suas exposições individuais. Conservo também memórias fortes de obras que seria interessante voltar a mostrar.
1. 1984, "Pintura", Nova Opinião (Expresso/Revista, Cartaz Exposições de 19 Maio)
A passagem ao suporte plano, depois dos anteriores relevos articulados, gera uma pintura agressiva, mais torturada que "despreocupada", que se encontra com a "bad painting" mas remete para um olhar e uma "découpage" de BD.
2 . 1987, Novo Século (Expresso/Revista, Cartaz Exposições de 14 de Março)
A partir de gravuras de Hokusai, Utamaro, etc, "Estampas japonesas". A origem na BD é usual em Jorge Varanda, como referência imagética, modo de inscrever a figura no plano do suporte ou de sugerir relações de movimento e narração; a composição fragmentada e sequencial prossegue aqui, mas investida de uma energia e de um prazer que alteram as condições antes definidas, ao mesmo tempo que autonomizam as telas de um jogo de citações ou pastisches. O humor, a veemência erótica, a intensidade cromática, asseguram uma incomodidade que marcou sempre um trabalho inquieto e marginal.
3. 1994, Sala do Veado - Museu de História Natural (Expresso/Cartaz de 26 de Fevereiro)
Jorge Varanda regressa com o seu modo original de pintura sobre construções volumétricas e recortadas, em madeira, à volta das quais se circula, como se de escultura se tratasse; aqui, mostra formas paralelipipédicas, em altura, onde se inventam inéditas paisagens urbanas. No exterior estão pintados interiores domésticos, em espaços de acentuadas perspectivas, rasgados por janelas. É no interior iluminado das suas construções que a cidade se descobre, deserta e mutante nas suas diversas referências arquitectónicas. Assim se cria uma inesperada inversão de posições, onde é o mundo que se encerra como um espaço limitado e sem horizontes, visto por um espectador que partilha o quarto também fechado do pintor. Algo falha, porém, no plano da execução do projecto — por descuidada aplicação ou excesso de urgência. (Acrescento agora: esse projecto estava já de passagem para novas experiências). (2009)
Drugstore, 1984
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No catálogo actual do CAM, uma obra de design gráfico que virá a ser uma peça de colecção — de Jorge Silva - Silvadesigners —, encontro mais uma nota de 1983 ("Ludos", Gal. Metrópole) e outra de 1990 (Monumental-Bertrand), mais o registo de várias colectivas.
Algumas obras recortadas, frontais e domésticas, lembram-me os relevos de António Peralta (no MNE), e alguns personagens lembram-me a pintura directa e descritiva de Oskar Kokoschka. Tenho de voltar com tempo e de usar o catálogo. É positivo que Isabel Carlos tenha dado guarida no CAM a um tal projecto pouco mediático e pouco comercial, que Lígia Afonso tenha sustentado a originalidade inquieta desta obra, e que o espólio tenha sido conservado pelos mais próximos. Jorge Varanda continua a ser inquieto e imprevisível.

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