« Luanda é/era do Alvim | Main | O pouco MNE que nos mostram »

02/08/2013

Comments

Feed You can follow this conversation by subscribing to the comment feed for this post.

jpt

Pois. Sublinhando eu, se me permite, que a visão de Gilberto Freyre transportava ainda uma ideia da superioridade potencial do contexto brasileiro sobre o dos Estados Unidos, uma superioridade civilizacional (um superior potencial desenvolvimentista, passe o anacronismo desta expressão se utilizada para a época).

Este postal esmiuçando a questão está muito certeiro. Mas não percebo a origem do primeiro parágrafo, de que texto se trata?

saudações

Alexandre Pomar

Obrigado pelo contributo e a apreciação. De facto, a coexistência e convivência das três populações (índia, portuguesa e africana), e a sua antiga e crescente miscigenação, são considerados factores que potenciam essa superioridade civilizacional que refere. Em especial num contexto histórico em que os EUA mantinham institucionalizada a segregação racial. Darcy Ribeiro falará da matriz índia, matriz lusa e matriz afro do Povo Brasileiro com grande optimismo político.

A nota é ainda justificada pelo tal artigo do António Pinto Ribeiro no Ipsilon, de onde vem o 1º parágrafo. Não me interessava já neste caso debater as opiniões, e sim desmontar as informações que parecem fundamentar os argumentos e estão sempre erradas: a história do "Mapa-cor-de Rosa" e da Conferência de Berlim, depois a relação entre Gilberto Freyre e o colonialismo português, etc.
Perceber aqui e em África a complexidade e a diversidade das posições colonialistas e colonizadoras (não são o mesmo) parece-me necessário e já possível.
São as figuras da Seara Nova e da Oposição Democrática que se inspiram na Casa-grande & Senzala, a partir de 1933, e é com elas que se relaciona G.F. Forçado a encerrar o capítulo do Império, em 1951, o sector reformista do regime atraiu muito mais tarde o sociólogo brasileiro e procurou servir-se das ideias de mestiçagem que antes o salazarismo condenava.

jpt

Ok, obrigado. Não percebi que era ainda o texto de APR a ser discutido (andei ausente, não vinha aos blogs há umas semanas e perdi o fio à meada, pelo menos aqui). Um artigo com o qual concordo na tese mas, como muito bem V. esmifra, tem inconsistências em termos de argumentação (também é apenas um artigo de jornal, sem menosprezo para os jornais). Para mim teve ainda o interesse de ver a transição para a pós-lusofonia por parte de APR, em tempos ideólogo-curador de uma lusofonia artística - e também muito discutível em termos conceptuais, se analisado em termos da reflexao histórico-antropológica (sobre a questão da "arte" deixo para os especialistas) que então vinha acoplada, implícita e explicitamente.

Não ironizo. Saúdo mesmo que determinados eixos do pensamento português (em sentido lato, um núcleo socialista ligado às instituições estatais-académicas) tenha deixado cair, em meados de 2000s, a parafernália "lusófona", o que agora APR veio exemplificar.

Depois há o problema, que V. coloca, de discutirmos o subjacente e o pretendido com o discurso "lusófono" pontapeando para o efeito conteúdos, limites e qualidades da extensa obra de Freyre. Não é preciso, acho, violentar Freyre para discutir hoje o rame-rame panlusofonista.

Cumprimentos, bom fim-de-semana

Alexandre Pomar

... dos artigos de jornal se vão fazendo muitos livros... Com menosprezo da definição de livro...

Eu julgo que ninguém deixou cair a (parafernália da) lusofonia, e menos ainda nas instituições, embora se recomende prudência no uso da palavra e se recuse tomá-la como bandeira de qualquer reconquista. Portuguesofonia é um péssimo sucedâneo, e portufonia não lembrou a ninguém. A palavra é precisa, tem um curso generalizado, umas vezes despreocupado outras vezes ideologizado (o mítico 5º Império, algum Agostinho...) e outras vezes crispado - mas a crispação será menos vocabular do que histórico-táctica (e para este ramo relacional valerá tudo, esse ou outro argumento).

A origem da palavra (os lusos, os lusitanos) é só literária, cf. Os Lusíadas, mas o poeta é maior, e circun-navegante. A história da palavra é recentíssima, pós-colonial, lavada. Que algumas vozes ex-coloniais contestem a lusofonia faz parte da revisão da relação de forças; que algumas vozes nacionais pretendam fazer um jogo alheio é fraqueza intelectual e oportunismo, ainda para mais quando se ocupam posições que exigem respeitabilidade. Lusofonia é, julgo eu, um termo operacional, e rejeito complicar o seu uso.

Chamo a atenção para um artigo de Cláudia Castelo hoje publicado no "Buala", importante quanto ao aprofundamento da recepção tardia de Gilberto Freyre no Portugal oficial a partir de 1951, mas muito frágil em dois passos essenciais, como refiro no facebook e hei-de desenvolver. E também o colóquio sobre lusofonia e francofonia proposto pela França e acolhido pela F. Gulbenkian a 14 e 15 de Março. E que outro termo se deveria ou poderia usar?

Alexandre Pomar

O Buala publicou no Ipsilon de dia 5 de Março um interessante artigo da Cláudia Castelo sobre Gilberto Freyre e o estado colonial português. (Não percebi - porque não se diz - se vinha a propósito de algum debate, e/ou do famoso artigo do António Pinto Ribeiro, "Para acabar de vez com a Lusofonia", no Público Ipsilon a 18-01-2013, tb publicado no Buala). Eu tinha há dias publicado as opiniões sobre o assunto que ficaram acima (8 Fev.), e deixo para já (?), retirado do facebook, dois reparos:

fica por sublinhar a ligação de Sarmento Rodrigues (ministro do Ultramar e depois governador geral de Moçambique, depois retido em Lisboa e impedido de prosseguir a sua política) a uma vertente reformista da política colonial que não é exactamente o que se designa genericamente por salazarismo (é Adriano Moreira quem o substitui como ministro...) ;

entretanto, ao afirmar-se que "nas margens do discurso oficial, o luso-tropicalismo vai encontrando receptividade junto de especialistas de diversas áreas do saber", apontando-se vários nomes, desvaloriza-se o facto de Gilberto Freyre e o seu livro "Casa Grande & Senzala" terem encontrando logo após a sua publicação uma grande receptividade junto de muitos intelectuais portugueses da oposição democrática, e democraticamente "colonialistas", como Jaime Cortesão, António Sérgio, Agostinho da Silva e outros, graças às suas considerações sobre a ausência de racismo em Portugal, as virtudes da miscigenação e a unidade cultural luso-afro-brasileira, o que já fora dito no capítulo "O Ultramar Português" de Yves Léonard, vol. 5 da 'História da Expansão Portuguesa' (dir. Francisco Bethencourt e Kirti Chaudhuri, Círculo de Leitores 1999 que a autora inexplicavelmente não refere na sua bibliografia:

http://www.buala.org/pt/a-ler/o-luso-tropicalismo-e-o-colonialismo-portugues-tardio

Alexandre Pomar

De José Pimentel Teixeira recebi por mail um comentário (uma contribuição) que incluo aqui em meu nome:

Tentei comentar no seu blog, no texto já antigo sobre o artigo de António Pinto Ribeiro. Infelizmente não entra, algum problema de ligação à internet ou do sistema, presumo. Assim sendo envio-lho

1. Bem, o meu "apenas um artigo de jornal" tem muito mais a ver com aquilo do número de caracteres possíveis, que normalmente (normalmente, não sempre) impede a completude das argumentações, e os desvios laterais para "blindar" textos (algo que também acontece no academismo, em particular quando mergulhado na tecnocracia do "paper", com tamanho determinado, palavras-chave e quejandos). Mas reconheço que a minha formulação no comentário acima merece essa sua canelada ...

2. Eu estou bem mais longe do "centro" lusófono do que V. e tenho que admitir que terá (alguma) razão quando diz que não se deixou cair a lusofonia. Mas lembro que em meados da década passada a própria presidente do então ICA*, M. J. Stock, expressou o desconforto com a noção e com os seus implícitos (e, já agora, vi antigos funcionários estatais, paladinos furiosos da lusofilia, a botarem nos blogs e redes sociais contra (sublinho, contra) a lusofonia. Houve, pelo menos, alguma retracção no uso do termo. Até que o poder mudou e regressou de certa forma (muito com a "lusofonia global" de Braga de Macedo, que teve alguma influência quando o PSD chegou ao poder, veja-se o SENEC que brotou e as tentativas para assumir a "diplomacia comercial"; e também com esta subalternização radical da "cooperação" à língua, que não é apenas a questão da nomeação do velho Instituto da Cooperação como "Camões" - quando o tudo, o mundo em particular, tenderia para o inverso).

3. A minha questão não é terminológica, sim, "portuguesofonia" ou similar soa diabólico. Nem de desconforto com as origens míticas, a viriatização do país - onde é que há discursos históricos sem esses patrimónios? A questão é do conteúdo implícito, e tantas vezes explícito, e das atitudes de apreensão do real que a "lusofonia" enquanto quadro intelectual imprime nos indivíduos e instituições. Não estou preocupado com o Alexandre Pomar, que terá o refinamento para o entender. E lembro bem de uma discussão com académicos lusófonos nos EUA que se espantavam com o desconforto com o termo. Para eles, há uma década, o termo servia para descrever um campo de estudos (ligado à língua, a uns "estudos culturais", à história, mas também às relações internacionais) mas também para afrontar, legitimando-o, a macro-"anglofonia" e apartar-se dos contextos "hispânicos". Ou seja, o termo tem um conteúdo amplo, serve contextualmente para coisas diversas.

A questão é o peso que ele tem em Portugal, e o conteúdo dominante que evoca, que faz brotar, as noções junto dos intelectuais, artistas e dos funcionários - dos produtores de discursos, de visões dos contextos e dos relacionamentos. Fartei-me de escrever no meu blog, de modo trapalhão, sobre o assunto. Mas penso que há textos luminosos sobre o assunto, e sempre os refiro. Faço-o aqui, ainda que acredite que V. os conhecerá e bem, pois ultrapassam em muito o texto do APR: que é "apenas de jornal" no sentido, agora, de que também não me parece provir de uma reflexão muito aprofundada, é mais um desabafo de ocasião, talvez até o explicitar de um afastamento. Textos dos anos 90s de Eduardo Lourenço, de Alfredo Margarido (este mais radical) e de 2000 de Miguel Vale de Almeida parecem-me suficientes para entender os implícitos acriticados que a "lusofonia" transpira.

O tempo desactualizou-os? Talvez. Mas, honestamente, ao ver como os produtores de discursos continuam a olhar os contextos "lusófonos" (ou seja, o velho Império) parece-me que ainda não. Ou seja, a palavra é lavada (boa ...) mas as suas entranhas vêm ulcerosas.

Como é evidente toda minha jeremíada sobre a lusofonia poderá ecoar a minha fraqueza intelectual, como V. refere. Mas, garanto-lhe, e nisso sou juiz em causa própria, não leva oportunismo nenhum. Que oportunistas neste meio de acção conheci bastantes, incrustados nas redes (pro)estatais. E eram todos "lusofonistas" - com a dimensão de autocentramento e aplainamento da história e do actual que sempre demonstram. Ou, para tentar ser mais entendível, entendendo o real como fruto, histórico e actual, da "lusoplastia". Desentendendo-o. Abissalmente.

Aliás, para se oportunista(s), não estaria(mos) aqui a discutir isto nas catacumbas de um blog num texto de há algumas semanas. Vou, portanto, achar que não era para mim o pontapé.

4. Lerei o texto da Claudia Castelo. E fico à espera dos seus comentários. Quanto ao colóquio, lamento, é longe. Pode ser que brote na internet, em formato de actas ...

--
jpt

* Instituto Camões

Verify your Comment

Previewing your Comment

This is only a preview. Your comment has not yet been posted.

Working...
Your comment could not be posted. Error type:
Your comment has been saved. Comments are moderated and will not appear until approved by the author. Post another comment

The letters and numbers you entered did not match the image. Please try again.

As a final step before posting your comment, enter the letters and numbers you see in the image below. This prevents automated programs from posting comments.

Having trouble reading this image? View an alternate.

Working...

Post a comment

Comments are moderated, and will not appear until the author has approved them.

Your Information

(Name and email address are required. Email address will not be displayed with the comment.)

Categories

Twitter Updates

    follow me on Twitter